Amor, Luto, Saudade, Tristeza

Hoje acordei com um sorriso diferente

Hoje acordei com um sorriso diferente, mas fui trabalhar com uma mensagem interior de que é necessário acordar e reagir ao que tiver que viver no dia.

Meti-me no carro e ofereci o meu dia a Deus. Que me tornasse numa ferramenta para que eu conseguisse chegar até onde sou precisa de verdade.

Tem dias que a minha força me falta e nesses momentos enquanto realizo qualquer tarefa falo em voz alta com o meu filho Pedro. Não são lamentações, são pedidos de força, para conseguir viver o dia da melhor maneira que eu conseguir.

Gosto da função que tenho no momento, mas confesso que me gasta muita energia, tanto física como mental, visto que se torna difícil por vezes gerir uma série de sentimentos que teimam sair de dentro de mim, onde me recuso a reagir de forma negativa, e vou contando mentalmente ou imaginando estar num sítio lindo e belo que me tire dali para fora.

E vou seguindo, devagar, do meu jeito e tentando que a energia estagnada com que me deparo muitas das vezes não me fira por nada. E é assim o meu modo de caminhar.

São muitas as pessoas amarguradas, que não estão felizes com nada, e reclamam a toda a hora sem se darem conta que tem tudo o que é preciso na vida para se ser feliz.

A verdade é que nem te dás conta, mas a realidade é que tu és o que pensas e sentes no teu modo de caminhar.

Se vives uma vida sempre a reclamar, tornas-te uma pessoa insatisfeita e cruel para os demais. E é aqui, precisamente aqui, que eu penso muitas das vezes, que tomara a maioria das pessoas não saberem o que custa a perda de um filho, porque deixariam de reclamar por uma acção desta ou daquela, ou pelo simples facto da pessoa pensar.

É difícil! Muito difícil ter de gerir tudo isto, e é por isso que eu tento levar o meu dia-a-dia com um sorriso no rosto, mesmo que por vezes ele seja mais fraco e na verdade me apeteça mesmo é chorar.

A vida já me tirou tanto, que não dramatizo mais com coisas que considero banais.

Lembras-te de ainda há pouco ter referido neste texto de que tu és o que sentes e o que pensas? Olha que é mesmo real. Por isso pára de te sentires como Merda, porque aí sim atrais até ti tudo o que de mau pode existir. A nossa mente envia para o universo todos os nossos pensamentos e não os filtra como tu pensas e é por isso que muitas vezes na tua vida tu sentes que todos estão contra ti, ou que tudo de ruim te acontece.

Tenta sorrir mais!

Tenta amar mais!

Tenta agradecer mais!

Tenta evoluir mais e verás que a tua boa energia irá criar um escudo ao teu redor e trazer para bem perto de ti pessoas boas com a mesma frequência que a tua.

Não te firas mais do que já te feriram. Não te escondas de ti mesma nesses pensamentos que só te vão deixar ainda mais em baixo e sem vontade de reagir.

Não falo somente de mães e pais que perderam os seus filhos, mas também das pessoas em geral.

Muitas mães me questionam como eu consigo? Já expliquei em outros textos e voltarei a referir as vezes que forem necessárias de que eu vivo a vida homenageando o meu filho.

Como?

Vivendo o que não lhe foi permitido por falta de amor-próprio e de um estado depressivo em que se encontrava e que por não querer preocupar a família ou magoa-la o escondeu de todos os que o amavam.

Um jovem imaturo, que como qualquer jovem de 18 anos, pensa que tem o controlo de tudo, e no entanto, não podiam estar mais enganados.

Ninguém tem o controlo de tudo. Diria até que ninguém controla nada.

Todos dependemos de todos e todas as acções nos afectam e afectam os demais com quem nos relacionamos.

Por isso repara!

Mãe que escolhe viver amargurada no seu canto sem quase nada fazer a não ser somente levantar, ir colocar o seu filho na escola e chorar. É verdade que tens direito ao teu espaço e ao teu tempo, mas todo o tempo tem limite, seja o teu, seja o dos outros. Ninguém quer viver com alguém amargurado o tempo todo e dizendo mal da vida, porque isso suga-lhes a própria energia, e apesar da energia ser universal, nem todos estamos na mesma frequência.

No outro dia falava com um amigo, que me respondeu:

– Rute, não digas que o teu filho se matou. Diz somente que morreu! –  Não fiquei chocada, mas não fiquei calada e respondi de imediato.

– Discordo! Eu encaro de frente esta realidade de modo a não sofrer ainda mais e para que as pessoas entendam que ninguém está livre de que esta realidade entre pelas suas casas dentro. Se eu digo que o meu filho morreu, logo surgem mais questões e por isso eu descobri que se disser a verdade, as questões ficam bloqueadas, com o choque da informação. Vergonha já tive muita, hoje já não é bem assim, porque com tudo o que o meu filho deixou escrito eu percebi o que o levou a dar aquele salto naquele fatídico dia.

Não aceito, e zango-me muitas vezes, falo com ele para que ele saiba que eu estou e fiquei extremamente desiludida, porque ele sempre teve exemplos de que apesar dos tombos, nos levantamos em seguida. Mas ele estava cansado! A sua mente estava exausta e foi por isso que fez o que fez, por sentir tanto, que não teve força para saber separar um momento, de uma decisão para a vida, ou melhor, uma decisão para a morte.

É por isso que eu me sinto diferente! Sinto mesmo uma força cada vez maior dentro de mim, mas atenção, eu também sinto, sofro, tenho as minhas dúvidas, mas há algo que eu faço e contemplo, que é observar com atenção tudo o que me rodeia.

Eu consigo, amar uma teia de aranha com as suas cutículas de água presas nela depois de uma chuva, ou de um orvalho mais acentuado. Eu consigo amar uma folha em forma de coração que cai aos meus pés, um tronco com uma forma estranha, uma nuvem com um contorno diferente, a tonalidade do céu. Tudo para mim surte esse efeito de reposição de energia, muitas das coisas que são dadas como adquiridas pelos demais e por isso não a contemplam com toda a beleza que lhes é exigido.

Sou grata! Grata por ter essa capacidade de olhar para tudo o que me rodeia e alimentar-me. Hoje do nada, surgiu-me um abraço de alguém que precisa tanto quanto eu de amor, carinho, atenção e um abraço, embora por factores diferentes. Mas pediu-me um abraço e eu apesar de admirada, soube-me tão bem. Energia, lembram-se? Foi muito bom mesmo e deixou-me a sorrir e renovada. Gratidão pelo momento de partilha.

Desde a morte do meu filho, que vivo ligada á corrente como se estivesse viciada. Não quero nem desejo por nada ficar parada e imóvel dizendo mal da vida, carregando no meu peito uma má energia que não irei saber lidar com ela.

Sei que nem todas vocês pensam assim, e sei também que nem sempre as minhas palavras fazem grande sentido para todos vós, mas isso é porque somos todos seres individuais e com visões muito próprias de como têm que viver a vida. Mas acreditem que tudo seria muito mais fácil convosco se escutassem um pouco mais o vosso coração sem estar embebido na dor.

Mães! Os nossos filhos se tivessem o poder de voltar para perto de nós por um só momento iriam dar-nos um puxão de orelhas! Eles não querem que vivamos tristes! Amar é relembrar tudo o que eles foram, agradecendo o tempo que eles estiveram connosco.

“Mãe! Cuida dessas jóias que eu amo tanto!” foram palavras escritas pelo meu filho depois de já ter decidido de que não queria viver mais, mas antes de definir o dia para o acontecimento.

Conseguem entender? Conseguem ver o que eu vejo? Ele já havia desistido dele e continuava preocupado com os irmãos, preocupado com a minha capacidade de continuar sendo a mãe que ele conhecia. Ele não colocou hipótese alguma de que eu também poderia desistir de mim e dos que me amam. A seu ver, eu iria ser forte para aguentar com mais esta.

Por isso sim! A minha capacidade de ver as coisas como elas são, é maior do que vocês podem imaginar. Mas não faz de mim uma guerreira como muitos de vocês me apelidam e enaltecem. Faz de mim um ser que vive em função do amor e eu sei o quanto o meu filho me amava.

E é por esse factor que eu bato o pé as vezes necessárias para que vocês acreditem em vocês mesmas e reajam á vossa capacidade de amar. Amem os vossos filhos, vivendo o que lhes foi privado de viver e experimentar, e estou certa que no lugar onde eles estão, vão falar com orgulho, “Aquela mãe é a minha, a quem eu faltei, mas ela apesar da sua privação na vida, ela se ergueu, honrando o meu nome e imortalizando-me no tempo e no espaço. Obrigada mãe, eu amo-te muito.” É isto que eu pretendo. Que o meu filho continue orgulhando-se de mim.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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