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Fiquei sem o meu anjo ainda bébé

Todos os dias leio mensagens de mães com bebés anjos. Todos os dias o meu coração fica apertado por não ser capaz de ficar indiferente ao sofrimento destas mulheres.

Elas também tinham planos! Queriam ter a oportunidade de ver crescer seus amores e juntos escreverem uma história de aventuras, partilhas e memórias.

Deixem-me falar um pouco destas mães, que como eu também perderam um bebé.

Estas mães sonhavam com o momento em que iriam ter os seus bebés anjos nos braços, que iriam sentir as mãozinhas pequeninas deles, que iriam cheirar os seus bebés, ficar com o cheirinho deles no seu corpo, sentir o bater do coração bem juntinho dos seus.

Estas mães escolheram o nome, muitas destas mães ficaram até ao dia do nascimento para saberem se iriam ter uma menina ou um menino.

Compraram seus enxovais, montaram os seus quartos com tudo a condizer, tinham as roupinhas para sair à rua e as roupinhas para estarem com os seus tesouros em casa.

Estas mães sentiram cada pontapé, cada mau estar durante a gravidez, aguentaram os enjoos, a azia, a prisão de ventre, as dores nos ossos, a ciática e os vómitos. Muitas até tiveram que fazer repouso absoluto em nome do amor que ainda sem conhecerem os seus bebés já os amavam.

Não há como dizer a uma mãe que esqueça aquele anjinho que não chegámos a conhecer. Não há como ficar indiferente a esta perda.

Não! não o vimos crescer, não conhecemos o seu rosto sem estar inchado do parto, nem ir para escola, ou chegar-nos a casa com a primeira namorada, é verdade. Mas a saudade vai existir sim, a falta vai endurecer o nosso coração, sim. Muitas não vão querer saber de engravidarem logo em seguida, porque têm medo. Porque receiam esquecer aquele que não teve oportunidade de nascer, ou que nasceu e morreu em seguida. Muitas vão ficar sozinhas na escolha de uma segunda gravidez, muitas vão sozinhas festejar a gravidez de outro bebé. Muitas vão querer logo engravidar a seguir à perda.

Todas nós reagimos de maneira diferente.

As mães que conseguem levar a sua gravidez até ao fim e perdem o seu bebé durante, antes ou depois do parto, ficam com um vazio horrivelmente difícil de superar. Vão precisar de muita ajuda. Vão precisar de muita compreensão. Vão precisar de muito carinho, elas ficaram impedidas de amar o seu anjinho de carne e osso.

Tenho noção de que muitas de vós acompanham o que eu escrevo acerca do meu filho Pedro, que morreu o ano passado a 24 de Maio, contudo eu também perdi um bebé bem no inicio da gestação, Ainda não tinha completado os três meses.Custou-me imenso ao inicio e chorei muito e ainda hoje recordo a data da perda com mágoa e fico imaginando como ele ou ela seria.

Esperei somente 5 meses e engravidei do meu filho Pedro que viria a morrer passados 18 anos e 364 dias por vontade própria.

A esse bebé que eu perdi eu atribui um nome e falo muitas vezes para ele ou ela. Na minha mente foi um menino que eu perdi.

Hoje depois de tanto sofrimento que carrego no meu peito acredito que os irmãos estão juntos e olham por mim, pelos irmãos e pelo pai.

Eu que não o vi nascer, porque tive um aborto espontâneo, fico muitas vezes imaginando de que se fosse vivo ou viva, teria cerca de 21 anos e eu não teria sido mãe do Pedro, ou o Pedro não teria a esta altura a idade com que morreu e seria muito mais novo. A verdade é que não há como prever nem superar estas perdas. Todas têm um forte impacto na vida de uma mãe.

Fazemos tantos planos! Tantos planos que por vezes nem imaginamos onde vamos buscar tanta imaginação para tal.

Mas eu digo-vos! Vamos buscá-la ao poder do amor. A nossa necessidade de protecção, de vermos aquele pequeno ser, bem, feliz e muito amado.

Mamãs, vivam a vossa perda da melhor forma que conseguirem. Se for tentando engravidar logo em seguida, força!

Se for dando tempo até sararem o vosso coração! Dêem esse tempo a vós mesmas.

Lembrem-se que esse anjinho que não chegou a nascer, e o que nasceu e viveu muito pouco tempo nos vossos braços, ou o que veio ao mundo já sem vida, é, e continuará sendo vosso filho, e da mesma forma que ele entrou dentro de vós e cresceu dentro do vosso ventre pelo amor. No amor ele continuará sendo e vos acompanhará até ao dia em que se juntarão a ele.

Não importa o que digam da vossa perda! Não importa que não haja a sensibilidade para respeitarem a vossa dor. No momento em que essas pessoas se dirigirem a vocês e tiverem a infelicidade de proferirem um comentário triste e infeliz, peçam perdão a Deus por elas,

Quanto ao resto mandem-nas à merda mentalmente e sigam o vosso caminho.

Quanto à minha experiência enquanto mãe defilhada, apesar de ter sofrido imenso com a perda do meu bebé, a verdade é que jamais colocaria em hipótese alguma vir a perder o meu filho de 18 anos, nas véspera do seu aniversário. E garanto-vos que me doeu muito mais esta perda do que a primeira, mas somente porque não cheguei a conhecer o rosto do bébé anterior ao Pedro.

Agora uma mãe que perde um bebé, que o teve em seus braços, a única coisa que tem de diferente a qualquer outra mãe defilhada que perde o seu filho pequeno ou jovem, é de facto não ter uma partilha de experiências que possa recordar com saudade, porque de resto, mamãs, é tudo igual, ou quase igual.

A verdade é que a nós é-nos dado a oportunidade de criarmos laços e essas mães é-lhes roubado.

Por isso respeitem-nas, porque estas mulheres perderam igualmente metade do seu coração, e pior do que tudo isso, tiveram que regressar a casa de braços vazios, marcas no corpo e um leite que não pára de ser fabricado até ser seco por intermédio de medicamentos.

Muito respeito por todas estas mães.

Com um carinho e compaixão pela vossa perda,

A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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