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Falta-me o futuro!

Uma mãe defilhada e em idade avançada, julga não ter mais um futuro.
Mas em verdade vos digo, que o futuro de cada uma é o segundo seguinte.
A escolha está sempre do vosso lado.
Escolher continuar a viver os vossos netos, filhos que ficaram, ou simplesmente deambularem por entre os vivos enquanto o vosso coração bater.
É certo que falo sem experiência, porque afinal ainda so tenho 43 anos. E não sei o que me reserva o futuro. Se a vida longa ou a morte prematura.
Mas…
Posso nem viver tanto assim quanto vocês.
Já vos disse outrora que a minha avó manterna era também uma mãe defilhada e só a vi desistir de lutar quando perdeu o seu segundo filho e somente porque já se encontrava na casa dos 80 e com o coração fragilizado de tanta dor.
Não foi ela quem me criou, porque não lhe foi dada essa oportunidade, mas ao final de alguns anos estive muito presente em sua vida , lembrando-a que a amava.
Eu dizia-lhe muitas vezes um Amo-te!
Era recorrente ela me ligar no meu aniversário. Um aniversario sempre marcado pela perda da sua única filha. Recordo-me das suas doces palavras e de que sempre terminava o seu telefonema a chorar.
As saudades eram mais do que muitas.
Não tinha como ser diferente.
Ao mesmo tempo que contabilizada mais um aniversario do meu nascimento, contabilizava também o dia da partida da sua menina.
Lembro-me de sempre lhe ligar no aniversário da minha mãe, dia 02 de Setembro. E sempre terminava o telefonema dizendo, que embora a minha mãe não pudesse festejar este dia com ela, queria que ela soubesse que eu não me esquecia nunca deste dia e de que a amava muito. Choravamos as duas.
Mas ela lutou!
Criou os seus outros três rapazes sozinha. Com altos e baixos. Apoiou e retirou o apoio, todas as vezes que ela enquanto mãe achava necessário para os fazer crescer fortes numa sociedade que em nada nos protege.
Dedicou-se a cuidar de crianças, e muitas foram, as que lhe passaram pelos braços. Incluindo os meus filhos mais velhos, seus bisnetos. O Pedro e o David.
Ainda hoje o David se lembra de passagens que teve na sua companhia na hora das refeições. E não preciso dizer muito.
Ela foi mãe, avó, bisavó e amiga.
Sempre a considerei uma mulher forte.
Talvez tenha herdado um pouco da sua garra.
A minha avó também foi mãe defilhada cedo.
Talvez na mesma altura do que eu. Na casa dos 40.
Não consigo imaginar o que lhe passava na mente sempre que ela podia estar comigo.
Não sou avó, e nem o meu Pedro, me deixou nenhum neto como companhia.
Quanto a mim, sempre tentei mimá-la e compensá-la na ausência da minha mãe. Pensei que bastaria.
Eu não fazia ideia de que dor era esta.
Hoje sei, que nada do que eu tenha feito, compensou. Porque nada nem ninguém compensa a morte de uma filha.
É aqui, que eu vejo que muitas vezes eu também erro.
Quando alego às mães defilhadas tranformadas em mães duplamente, que tem os seus netos para as agarrarem à vida.
É mentira!
É um engano!
Ninguém compensa ninguém pela a ausência de um filho.
Pode ajudar. Mas não soluciona.
Porque não existe solução.
Ela nunca desistiu. Ela sempre sorriu. Um sorriso fragilizado pela saudade. Talvez tenha ouvido a minha avó a dar uma valente gargalhada duas ou três vezes na minha vida.
Quando na casa dos oitenta perdeu o meu tio Orlando, foi quando vi a minha avó desistir de lutar. Foi quando presenciei a tristeza dela em todos os segundos do seu dia.
Foi quando a ouvi dizer que já não tinha forças para mais. A morte do meu tio foi um arrombo enorme.
Que lei da vida é esta que leva um filho e mais tarde vem pregar o golpe final, levando outro.
Sinceramente espero nunca saber.
E mais não me atrevo a dizer, porque a primeira vez que o disse, fiquei sem o meu Pedro.
Ouvi recentemente uma mãe defilhada de quem eu não sei nada, proferir que quando se chega a uma determinada idade, já não se tem futuro. Já não se faz planos. Já não se espera nada.
Fiquei a pensar. E não me atrevo a proferir nem mais uma palavra a alguém que me partilha este desabafo, porque não existe nada que possamos dizer, que faça algum sentido lógico.
Penso, que viver basta.
Penso que respirar basta.
Penso que aguardar pelo reencontro chega para manter um coração destes a bater de mansinho.
O meu sincero respeito por todas as mães que vivem nesta realidade.
Amo-te muito minha querida avó Manuela e tenho saudades tuas.
Com carinho,
A mãe do meu filho tem asas.
– Rute Reis Figuinha –

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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