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Existem tantos tipos de mães!

  1. Mãe!

O que significa esta palavra que para muitos não significa nada e para outros simboliza o mundo. Uma palavra carregada de amor, dedicação, renuncia a si própria. Uma palavra cheia de força, sabedoria, de dor, tristeza, agonia.

Ser mãe, é muito mais do que parir. Ser mãe, é cuidar, amar, proteger, criar um ou mais seres que mesmo que não tenham sido gerados no seu ventre, ela os protege com a sua vida. Eu tive uma mãe assim. Uma mãe de criação. Uma mãe que me protegeu. Uma mãe que lutou por mim. Que me amou, que cuidou, que me repreendeu. A única coisa que não fez, foi a de me gerar no seu ventre.

Eu conheço muitas mães e faltou-me conhecer a minha. Sei muito pouco de como ela era, o que fazia, como ria, como falava, dançava. Se pintava, desenhava, ou fazia alguma outra arte.

Sei que era carinhosa e que tinha um rosto angelical, mas pouco lhe conheço de verdade. Talvez porque me falarem dela era doloroso demais. Talvez porque as saudades doem. Talvez porque a ausência fere. Mas para mim enquanto criança, o que me ofereciam sobre a minha mãe já me bastava para a amar. Mesmo sem a conhecer. Um amor que não se explica. Estou privada da minha mãe há 43 anos.

Eu dizia muitas vezes e ainda hoje o digo… “Eu amo a minha mãe”. E facto é, que quando aos meus 18 anos pude ver o local onde o corpo dela descansa, eu chorei de verdade, como se a tivesse perdido naquele dia. No dia 1 de Julho de 1995. Quando havia acabado de fazer 18 anos. Algo que eu nunca consegui explicar, mas que dentro de mim só surgia um pensamento… “Vai conhecer o local onde a tua mãe descansa. Eu não quero acreditar que a minha mãe está mesmo morta.”

É verdade! Foi a primeira vez que visitei a campa da minha mãe. Até lá, não me havia sido permitido. Nunca questionei o porquê. Simplesmente me resignei a aceitar a vontade dos adultos que me acompanhavam. Fiquei com muito pouco dela. A única coisa que me restou, foi a vida. Aquela que manterei fiel ao propósito de vida que me foi imposto, ficando privada de tudo nela.

Sempre falei com a minha mãe, sempre lhe pedi coisas. Sempre projetei desejos em seu nome. Sempre lhe agradeci. Sempre chorei pela sua ausência. Sempre lhe pedi perdão pelos meus erros. Sempre lhe desejei os parabéns, sempre lamentei eu ter vivido e ela morrido. Durante muitos anos, não via com muito entusiasmo o dia do meu aniversário, porque estava carregado com o ultimo dia de vida da minha mãe. A minha mãe, apesar de não a conhecer, era o meu Deus. O anjo na terra que me protegia. O anjo que me salvava. Cheguei mesmo a ter pessoas mais sensíveis a olharem para mim e dizerem-me que eu não caminhava sozinha. Que uma imensa luz, maravilhosa me iluminava. A quem atribuíam a presença da minha mãe. Eu acreditava! Eu acredito! E por mais incrível que pareça, chego a creditar que ela já me salvou umas quantas vezes de morrer. Quando me avisa! Quando me surge aquela voz que eu só oiço na minha mente e só o meu coração entende.

Ainda hoje guardo tristeza por não a conhecer, e certamente me irá acompanhar até final da minha vida, porque não se explica a ligação que existe entre mãe e filha. Entre filho e mãe. E eu posso dizer que amo a minha mãe.

Desde que fui, eu mesma mãe, abracei este papel com toda a minha garra. Envolvida pelo amor, pelo medo, pela a esperança, pela coragem, pelo desejo de querer sempre, ver bem os meus filhos, pelos projetos e sonhos que tinha para eles. Pelo amor que lhes tenho. Pelo que lhes devo. Sim! Uma mãe também deve muito aos seus filhos.

Uma mãe sempre tem receios associados à forma como educa, ama, cuida, trata, protege. Existem mães que vivem com medo toda a sua vida. Existem mães que são acarinhadas uma vida inteira e existem mães que são maltratadas e abandonadas pelos seus filhos. Sim! Por aqueles seres que juraram proteger, que amamentaram, que cuidaram, que protegeram, que deixaram muitas vezes de fazer algo que tanto gostavam somente para os ver crescer. Mães que abandonaram suas carreiras. Seus sonhos. A si mesmas. Também elas sofrem às mãos de seus filhos. Muitas são as mães que vivem todos os seus dias envoltas de alegrias. E muitas são as mães que carregam no peito a miséria, a tristeza, o abandono, a violência, a violação e o desprezo.

Sim! Uma mãe também sofre às mãos dos seus filhos quando é despeitada, desrespeitada, abandonada.

Uma mãe também tem direitos! Não são somente deveres.

Hoje, conheço mais mães do que nunca! Mães como eu, que choram, envoltas da saudade, da incompreensão, da tristeza, da revolta. Mães que não encontram mais motivos para este dia!

Mães que deixaram de querer saber sobre o celebrar do dia da mãe! É que para elas, este dia deixou de fazer sentido, porque os seus filhos já não podem passar o dia com elas, como desejariam. Este dia está carregado de memórias felizes e angustiantes ao mesmo tempo.

Este dia, para mim ganhou um sabor agridoce! Este irá ser o segundo dia da mãe que irei viver incompleta. O ultimo que tive o prazer de festejar com os meus três filhos foi no dia 05 de maio de 2019. 19 dias antes de tudo se desmoronar à minha volta. Melhor ainda, posso dizer, que todos os dias da minha vida ganharam, um sabor agridoce. Todos os dias são quedas livres, precipícios de saudade. Mesmo tendo mais dois filhos. O meu numero eram três e serão sempre na realidade. Mas nada é mais igual. Nada é vivido como antigamente. Para outras mães, todos os restantes dias de suas vidas, tornaram-se amargos, pesados, autênticos asilos e penas pesadas de sofrimento, porque só tinham um filho na sua vida. E hoje só lhes restam as memórias e tudo o que conquistaram e partilharam juntos. O que ficou? Um quarto vazio,  roupas nas gavetas e nos armários sem serem tocadas. Objectos pessoais posicionados no mesmo local, ainda pelos filhos. Bens que se tornaram preciosos e que não ousam partilhar com ninguém.

Nenhuma mãe é igual na dor! Nenhuma mãe vive este dia da mesma forma! Nenhuma mãe entende verdadeiramente este dia que todos festejam e algumas desejavam simplesmente fazer desaparecer do calendário. Porque a verdade? A verdade é que este dia, há já a algum tempo que deixou de fazer sentido nas suas vidas. Mãe que já não têm os seus filhos para desempenharem o papel que mais amavam, e mães que como eu ficam divididas entre o céu e a terra, porque têm filhos em ambos os lados.

Existem tantos tipos de mães!

Mães que seguem aquele mesmo caminho todos os dias rumo ao cemitério. Mães que não conseguem lá entrar. Mães que desejavam ter ido junto com o seu filho e outras que nem ao funeral puderam ir.

Mães guerreiras! Mães derrotadas! Mães mal-amadas! Mães felizes! Mães destroçadas! Mães somente de nome! E mães sem nada! Mães incompreendidas! Mães abandonadas!

Não é fácil viver este papel! Não é fácil saber vestir esta capa de heroína o tempo inteiro.

Não é fácil fingir que está sempre tudo bem! Não é fácil não pensar em fugir, quando tudo ao nosso redor se colapsa.

Não é fácil ficar para lutar mesmo tendo sido derrotadas pela morte. No dia em que os nossos sonhos terminaram, ou parte deles.

Ser mãe é muito mais do que um simples nome!

Ser mãe é muito mais do que qualquer um de vós possa imaginar!

Ser mãe é muito mais do que a perda de um filho vos possa mostrar!

Ser é mãe! É ser invencível! Capaz de tudo fazer para continuar o caminho traçado pelo destino. Capaz de lutar contra uma sociedade. Capaz de lutar contra os seus demónios interiores e todos os exteriores que nos cercam no dia a dia. Ser mãe é ser capaz de entregar a sua alma ao diabo para salvar o seu filho te todo o mal existente na terra, nas pessoas, nos bens materiais. Mesmo que ninguém entenda. Mesmo que ninguém aceite. Mesmo que todos a persigam, a critiquem, a condenem.

Ser mãe é muito mais do que aqui possa escrever.

Ser mãe é ser dotada de uma capacidade extraordinária de perdoar, aos que ama e aos que despreza. Ser mãe, é ser Deus!

Deus, na boca de seus filhos, protectora na boca dos Deuses. Ser mãe é ter a capacidade de poder ver o seu filho vivo e falecido no mesmo dia em que desperta para a dor e a dor permanece na sua vida.

Ser mãe, é não ser nada na mente de quem não a respeita!

Ser mãe, é ser o ser mais frágil, quando todos a perseguem.

Ser mãe, é ter a força interior para lhe morrer o filho nos braços.

Este dia, que todos festejam e poucos o respeitam, homenageia todos os tipos de mães.

Este dia apesar de ser celebrado com alegria por muitos e muitas, é também sinónimo de calvário. Um dia muito triste para mães órfãs de seus filhos e filhas!

Este dia, que surgiu nos Estados Unidos partiu de uma feminista, Anna Reese Jarvis que em 1907 lançou um movimento para criar o “dia nacional das mães” dedicado ao aniversário da morte da sua própria mãe. Este dia estende-se mais tarde por mais países, até chegar ao nosso. Em Portugal apesar de ter sido festejado durante muitos anos no dia 8 de Dezembro por ser o dia da Imaculada Conceição, a conceção de Jesus Cristo através da Virgem Maria, mais tarde, passou a ser comemorado no mês de Maio por ser o mês de Maria, a mãe de Jesus Cristo, mantendo o mesmo significado. O primeiro domingo de Maio seria o dia escolhido em Portugal. Já no Brasil, seria o segundo domingo.

Em todo o mundo este dia é festejado, com amor, com alegria, com tristeza, com saudade, com amargura, com desprezo, com violência, com abandono e com um dia no calendário.

Ser mãe, mudou-me enquanto ser humano!

Mas a morte, mudou-me enquanto mãe!

Desejo a todas as mães e filhos, um dia tranquilo, seja em pensamento, seja na presença física que tanto amamos.

Ser mãe, é ser tudo e não ter nada. Porque nada é nosso de verdade.

Com carinho e tristeza, e um especial agradecimento aos meus filhos, que fizeram de mim a mãe que hoje sou, perante a vida e perante a morte.

A mãe do meu filho tem asas.

– Rute Reis Figuinha –

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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