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Eu sei!

Eu sei que o processo do luto é todo ele muito complexo, e sei melhor ainda que por mais que eu escreva a incentivar outros pais acerca de como podem melhorar a sua caminhada sem os seus queridos filhos que partiram na grande viagem, nunca será o suficiente, e sabem porquê?

Porque embora eu interiorize cada palavra que escrevo, para mim também não é o suficiente, porque me falta ele.

Hoje mesmo durante uma consulta médica, a doutora questionava-me se eu me encontrava a tomar medicação, ao qual respondi negativamente.

Respondi-lhe que havia estado a tomar até há cerca de 2 meses atrás, mas que hoje não tomo mais. Sentia que a medicação me bloqueava, e não quero isso para mim. Desisti de tomar, abandonei a medicação, tanto para viver, como para dormir.

Sou o que sou e devo-o a mim.

Perguntou-me como me sentia. Respondi, que não tenho tempo para ter tempo de sentir alguma coisa durante o dia. Já á noite, bem…

À noite não é bem assim.

A doutora respondeu-me que era perfeitamente normal, e que eu deveria procurar fazer exercício, caminhar por exemplo, de modo a deslumbrar outras coisas que estão para além da azáfama com que vivemos o nosso dia-a-dia.

Respondi que perante o meu luto, eu lia muito e escrevia muito, via muito pouca televisão e estava com crianças e que por isso não tinha neste momento muito tempo para me dedicar a caminhar.

Insistiu! Disse-me que nem precisava de caminhar muito, contudo devia de sair de casa somente para ir respirar um novo ar e olhar o céu ou a natureza. Estar em paz.

Fiquei feliz, porque a doutora foi ao encontro de tudo aquilo que tenho vindo a escrever até aqui sobre o que devemos fazer e que eu fazia muitas das vezes.

Questionou-me a razão da morte do meu filho.

E eu friamente respondi.

O meu filho matou-se! Na véspera do seu 19º Aniversário ele matou-se!

A doutora parou de escrever e respondeu: “Isso é bem pior. Esse luto é bem mais difícil.”

Estive tentada a responder-lhe: “Diga-me algo que eu não saiba.” Mas ao invés disso optei por responder:” Eu sei Doutora! É mesmo.”

A partir dali, a doutora focou-se em me arranjar formas de eu poder ter a mente ocupada, e a tudo eu respondia que sabia, e que era o que eu fazia.

E é aqui, que eu partilho o meu pensamento de hoje, onde lhe escrevo que somos de facto seres em movimento e cheios de energia. Carregados de emoções em que muitas delas aguardam o momento certo para se manifestar. Contudo, quando as reprimimos, tornamo-nos seres mais negativos e pesados, com uma carga emocional muito maior do que a que podemos realmente carregar, e é por isso que nos tornamos cruéis por vezes. A verdade é que essa energia tem que ser descarregada em algum lado, e nem sempre escolhemos o momento certo. Essa mesma energia de que falo, se for mantida dentro de nós erradamente, pode vir a manifestar-se através de doenças, sejam elas de que foro, forem. Por isso sim! Devemos de exteriorizar as nossas lágrimas, raivas, medos, tristezas, agonias e alegrias.

Mas reparem!

O facto de sentirmos o peso do mundo nas nossas costas, e de não entendermos o porquê de nos ter batido na porta tal desgraça, não nos dá desculpa nem motivos para falarmos mal para os outros ou tratarmos com desdém e desapreço.

Afinal, eles não tem culpa do que nos aconteceu com um filho nosso e por consequência, connosco.

É aqui que marco pela diferença!

Trato os outros com respeito, e brinco muito, meto as pessoas à vontade para lidarem comigo como se nada se tivesse passado de negativo na minha vida.

Por isso tantas pessoas me abordam, com palavras como “Rute és uma força da natureza

Ou “A Rute é uma mãe coragem”, ou ainda “A Rute é um ser cheio de luz! É uma guerreira!”

E é aqui que lhe peço permissão para discordar um pouco. Eu não sou!

Somos todos!

Todos, mas todos temos essa mesma capacidade que eu encontrei e resolvi aceitar, e essa é a verdadeira chave para você também conseguir.

Aceitar que é um ser maravilhoso num inicio de uma viagem que tem muitas maravilhas acerca de si mesmo para descobrir.

Deixar o medo ficar para trás. É imensamente importante para si e para todos nós, porque o medo bloqueia e não nos deixa viver, mas somente nos permite sobreviver.

Confesso que nos primeiros tempos após a perda do meu filho Pedro, custava-me que os meus outros dois filhos pudessem fazer alguma coisa que os colocassem em perigo. Não há como evitar. É verdade sim! Uns pais defilhados ganham medos que desconheciam que tinham.

Passamos a ter aquela síndrome de quando os nossos filhos são pequenos em que os vamos espreitar à cama só para ver se eles estão mesmo a dormir e se respiram. Eu fiz isso muitas vezes, porque os meus filhos sempre foram crianças de dormirem muito. E ouvia-se tanto falar da morte súbita, que eu andava sempre por perto a rondar.

Hoje tenho outros tipos de medos e peço a Deus e a todas as forças divinas para que não me levem mais nenhum.

Mas conforme também já vos referi, é aqui que entra a nossa capacidade de fazermos diferente.

Em primeiro lugar, os meus filhos, não têm culpa da escolha do irmão.

Em segundo lugar, eles sofrem tanto, quanto os seus pais, com a ausência, saudades do mano.

Em terceiro lugar, eles estão vivos e precisam manter os seus hábitos e relacionamentos que tinham, e se querem que vos diga, devem sim de estreitá-los.

Em quarto lugar, a vida é mesmo somente uma passagem, então que a mesma seja vivida com paixão e muitas alegrias.

Em quinto lugar, o nosso amor pelos nossos filhos, não pode de forma nenhuma prejudicar as suas escolhas e vontades, claro que tudo com conta, peso e medida.

Por isso sim!

É importante não nos esquecer nunca, que eles precisam de nós, assim como nós precisamos deles.

E tudo isto para vos partilhar que o medo me movia! Bloqueava a minha força, a minha essência verdadeira que sempre esteve dentro de mim e a qual nem sempre aceitei.

Eu ganhei um medo horrível de ficar sem mais um filho e isso bloqueava-nos a todos na nossa forma de caminhar.

Hoje abandonei esse medo e olhei-o de frente. Como? Dizendo a mim mesma que infelizmente nós não exercemos qualquer tipo de poder sobre a capacidade de evitarmos que o pior possa acontecer. Deste modo é viver e deixar viver como se fosse o ultimo dia e dizer e mostrando sempre que os amamos muito e que ele são a fonte da nossa vida.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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2 Comments

  1. Alexandra Andrade says:

    Faz 8 mês que meu filho faleceu hoje só restou tristeza e sofrimento,,tão triste pergunto pq pra que meu filho se foi com 18 anos,tenho um menino de 8 anos mais é difícil continuar não posso tomar remédio pq não tenho quem cuida do meu filho 😭😭

    1. Rute Reis Figuinha says:

      Alexandra Andrade, procure por mim no face e falamos por lá. pode ser? O que lhe tenho para dizer não deve ser por aqui. Beijinho no seu coração.

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