Amor Luto Morte Suicídio

Eu não sou diferente! Eu acredito é que posso fazer diferente!

Hoje no dia que se assinala,

10 de Setembro “Dia Mundial de prevenção ao Suicídio

Não consigo ficar indiferente tendo em conta os mais recentes acontecimentos de minha vida.

Quando leio em algumas páginas desabafos de pessoas com depressão ou à beira do suicídio, faz-me ver que é mesmo urgente fazer-se alguma coisa para ajudar, ouvir, evitar o desejo horrível de morrer.

Hoje li um desabafo sobre uma rapariga que se matou porque o seu namorado na véspera de seu casamento, a informou pelo whatsapp que não iria mais casar com ela, ela resolve lidar com a sua dor da melhor maneira que encontrou, casando-se com ela mesma em Julho deste ano. A sociedade perante tal acção criticou-a severamente e ela não teve forças, perante tal humilhação.

Então uma pessoa critica o Setembro amarelo, indica mesmo que só se lembram do suicídio nesta altura. Até é capaz de ter razão, mas eu não vejo isso desta maneira.

Penso que podemos fazer sim algo para mudar-mos a mentalidade das pessoas e dos jovens que sofrem de ansiedade, depressão e desgosto pela vida e tudo o que a mesma engloba.

Penso sim, que devemos estar mais atentos a todas as pessoas que nos rodeiam. Sei que nem sempre é o suficiente, e infelizmente falo-o por experiência própria.

Nunca conseguirei esquecer, que o meu filho esteve doente ao meu lado e porque eu acreditava nele, acreditei sempre que era cansaço, e não depressão o que ele me dizia sempre estar a sentir.

Nunca esquecerei que lhe arranjei ajuda profissional e ele recusou-a à própria médica enquanto a mim me disse que iria continuar. É aqui que reside o meu pensamento de não me sentir culpada pela decisão do meu filho. Estou sim zangada pela sua mentira que originou a sua auto-destruição, estou desiludida, estou profundamente triste. Mas não me sinto culpada.

Eu não sou diferente! Eu acredito é que posso fazer diferente!

Por isso resolvi partilhar convosco um episódio que aconteceu comigo no dia 30 de Junho de 2019.

Havia um mês e 6 dias que o meu filho se tinha suicidado.

“Agora mesmo, vim até à praia para relaxar um pouco, mas algo aconteceu que me deixou triste e agoniada. Enquanto estendia a minha toalha e me deitava, foi impossível não ouvir uma jovem estrangeira, penso que Inglesa, a reclamar da vida com a sua irmã. O discurso dela era o mesmo que o teu meu amor.”

-“Não quero estas férias, não quero ter que ficar parada no mesmo sitio sem fazer nada.” “Não sei onde vou arranjar 1200 dólares.” “Não quero estar aqui, quero ir trabalhar, quero estar perto dos meus amigos.”

A irmã dela, enquanto falava com ela e tentava acalma-la, a rapariga só respondia.

-“Tu não entendes, tu não queres saber, tu não queres saber o que eu sinto.”

Entre muitas coisas que falou, quase sempre a gritar enquanto chorava e tapava o rosto com uma t-shirt laranja dizia:

– “Não quero estar no lugar que a mãe pagou! Aqui neste lugar onde passo o dia todo sem fazer nada!”

Ouvi-la deixou-me triste, porque revi nela algumas das tuas crises.

3 vezes o meu coração me mandou ir ter com ela e dar-lhe uma palavra. Até que resolvi partilhar o meu pensamento com o teu pai.

Quando o partilhei, ele disse-me:

– “Dá-lhe uma palavra, pode ser que te oiça.”

Foi o que me faltava para ir. Afinal eu sou uma estranha que de lado nenhum ela conhece e ainda por cima sou Portuguesa, não falávamos a mesma língua.

Pensei que me iria receber mal, aos gritos ou a recusar falar comigo. Pensei mesmo que iria passar vergonha e acabaria magoada, mas mesmo assim fui. Estava disposta aceitar o que viesse daquele encontro imediato sem planeamento ou programação.

Saí da minha toalha e fui ter com ela.

-“Permite-me que te fale uma coisa.”(Optei pela aproximação pessoal e não impessoal do você. Tratei-a como igual, apesar de nossas diferenças de idades. Ela estaria entre os 20 e os 30 anos.)

-“Desculpa, mas foi impossível não te ouvir enquanto falavas com a tua irmã e choravas”

Ela respondeu:

– “Desculpa, mas não quero falar com ninguém!” (enquanto chorava)

E eu, coloquei-lhe a minha mão direita sobre o seu ventre e a esquerda sobre o seu braço direito e ela permitiu tocar-lhe. Em seguida disse-lhe:

-“Perdi o meu filho o mês passado, porque ele como tu queixava-se dos mesmos problemas e não teve força e matou-se.” “Ele só tinha 18 anos.”

No fundo o que te quero dizer é que por mais difícil que a vida te possa parecer agora, tudo vai passar um dia, os problemas não são permanentes e tu não podes desistir.”

Ouve a tua irmã, ela quer o teu melhor, permite-te viver e tirar o melhor que a vida te pode dar. A vida é maravilhosa e o que te parece difícil agora, amanhã já tudo passou.”

Comecei a tremer muito enquanto a tocava, pedi desculpa e vim embora para a minha toalha. Depois agarrei no meu caderno que anda comigo para todo o lado e escrevi palavra por palavra, para não me esquecer de que posso fazer diferente. Que posso tentar chegar ao coração de alguém que precise.

Não sei filhote, se as minhas palavras lhe valeram de algo, sinceramente espero que tenham tocado a sua alma. Até o meu inglês fluiu com naturalidade e por isso te agradeço, porque acredito que foste tu quem me impeliu a tal.

Já se passaram mais de trinta minutos e ela parou de falar.

Obrigada filhote.

Amo-te e amar-te-ei eternamente.

Por vezes nem precisas de dizer muito, basta a pessoa saber que estás ali. Eu sei, eu sei, que com o meu filho não funcionou. Mas como venho vindo a dizer há já algum tempo, somos todos diferentes, com ele a minha aproximação não funcionou mas pode ser que funcione com alguém. E não se desiste só porque não deu resultado na primeira vez. Vocês não desistem dos sonhos, então porquê desistir de lutar por alguém que merece viver?

Com carinho,

Mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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