Amor Gratidão Luto Pedro Saudade Suicídio Tristeza

Eu e os outros

Sinto-me só!

Com a casa cheia de gente e sinto-me só.

Nunca mais me senti completa desde que perdi o meu filho.

Hoje mais friamente consigo entender o seu sentimento, mas não a sua decisão. 18 Anos, é muito pouco tempo para se desistir assim de uma vida.

A infelicidade permanece indiferente a todos os dias que teimam em passar por mim, por nós.

O silêncio instalou-se na nossa casa, como se de uma âncora se tratasse para fixar este navio em alto mar bem firme no fundo do oceano. Não tem nada a ver com o antes de tu morreres.

Com as nossas falhas, os nossos obstáculos mas eram-mos uma família. Uma família com altos e baixos, mas quem disser, não os ter, é melhor que faça uma revisão detalhada ao seu dia-a-dia. Não está seguramente a ser completamente justo.

As interacções dos nossos filhos mais novos são muitas e eu tento reagir, com dificuldade de concentração em muitas delas.

Sinto-me como o tempo. Instável, na maior parte dos dias em que o céu fica coberto por nuvens escuras e onde o sol por vezes surge.

De noite nem se vêem as estrelas que tanto passei a apreciar desde que partiste. Se antigamente já as contemplava, vindo-me ao pensamento a minha mãe, o meu avô e a minha avó Manuela, agora então, ficaram todos na fila de espera, porque só me lembro de ti.

Tenho medo de fracassar! Não como mãe. Neste papel eu sei e tenho consciência que desempenho bem, com paixão, com amor e entrega. É mesmo de falhar enquanto pessoa. De não ter forças para aguentar.

Já emagreci 10 kg desde que partiste e não é por não comer, eu como e tenho fome, só que a comida não me está a fazer proveito.

É importante falar da morte, para que ela não se torne num calvário para os que ficam vivos.

Eu preciso falar da morte do meu Pedro e é por isso que escrevo tanto.

Se não escrever, ou não falar com as pessoas certas, vou ficar muito doente. Porque quem não fala sobre o que sente, adoece lentamente. E eu não posso adoecer! Tenho que estar firme e ter força para viver por mim, pelo meu Pedro e para os meus filhos e marido.

Eles precisam de mim e eu sem dúvida nenhuma, preciso igualmente deles.

Pessoas que se vão cruzando comigo na vida, dirigem-me palavras tais como:

“A Rute apesar da perda do seu filho, permanece dócil, carinhosa com as pessoas”

“Tenho honra de conhecer a Rute, pela mãe coragem que é, de mesmo na dor, não desistir de alertar outros pais e de se preocupar com outros jovens.”

É aqui que eu constato, que as pessoas não me conheciam. Podiam-me ver, mas não com o coração. É aqui que eu chego à conclusão, que estou no caminho certo. A morte do meu filho, não me pode transformar em uma pessoa amarga. Eu preciso continuar a viver, e a ser a pessoa que sempre fui. As pessoas que me rodeiam não têm culpa do que aconteceu. E sim, tenho-me cruzado com pessoas com um coração muito grande, que embora não sejam minhas amigas, estão dispostas a ajudar-me. E isso tem que se agradecer.

Amo-te mais do que ontem filhote e muito menos do que amanhã.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Leio atentamente quase tudo o que postas….
    Tu serás sempre a ancora …com a tua força diária para falares do Pedrocas; para ajudares a tua famila; para ajudares outras familias que passam o mesmo cálvario que tu, ou simplesmente para alertar que pode acontecer a qualquer um de nós. Nós andamos tão atarefados, que não olhamos para o lado para por vezes dizer bom dia a um vizinho, ou porque não a o estranho que cruza o nosso caminho. Tu definitivamente ajudas muitas pessoas. Força Ruteeeeeeeeeeeeeeeee

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