Amor Luto Pedro Saudade Tristeza

Estarás sempre presente

O teu maninho Francisco apressa-se a dizer-me logo pela manhã que sonhou contigo.

Francisco – “Mamã! Sonhei com o mano Pedro!”

Eu – Ai sim? Meu amor, e o que sonhaste?

Francisco – “Sonhei que o mano tinha ido à minha escola.”

Eu – Foi visitar-te?

Francisco – “Não mamã. O Pedro estava ajudar as auxiliares que são poucas.”

Eu – E ele, falou contigo?

Francisco – “Sim. Disse: Kiko, eu amo-te muito!”

Eu – E ele, deu-te um beijinho?

Francisco – Não mamã, ele foi logo para cima e eu estava cá em baixo, ele foi-se embora e eu fiquei a chorar muito porque queria ir com o Pedro e vocês não estavam.

E o Francisco começa a chorar depois de terminar de contar o sonho.

Eu – Vês Kiko, o mano vem visitar-te nos teus sonhos e é importante dizeres sempre à mãe para que o possa ser escrever de forma a um dia mais tarde, poderes ler.

O Kiko nem sempre lida bem com a falta do irmão Pedro, tem momentos que pára e fica com um olhar fixo e esbugalhado, como se tivesse parado no tempo em viagem pelos seus pensamentos e quando o questionamos, ele partilha connosco a sua tristeza e os seus sentimentos. Ainda hoje começou a chorar e referiu que se lembrou de que o mano vinha sempre no lugar da frente dentro do carro e ele ficou triste mais uma vez, as lágrimas caíam-lhe do rosto, estávamos mesmo a chegar à escola.

Como eu gostaria de ter o poder de evitar todo este sofrimento aos meus filhos, mas não é possível. A única forma possível é mesmo a de evitar que eles sofram por qualquer outra questão. E quanto a isso irei estar bastante atenta para não falhar. Já que a ausência do irmão eu não consigo evitar.

O meu modo de caminhar na vida alterou-se e isso já não é novidade nenhuma. Quando penso na morte do meu filho, um sentimento me envolve e eu tento entender o que posso aprender com a mesma.

Parece-vos estranho, não é?

Ainda não faz muito tempo que eu me questionei do porquê! Porque razão esta morte me bateu na porta e entrou numa família que nada fez para a merecer.

Actualmente, não faço mais essa questão. Até porque é uma questão que nunca irá ter uma resposta com lógica. Então, só me resta, colocar uma nova questão.

Para quê? O que posso fazer de diferente com esta perda? Todos os dias a resposta a esta questão me chega através de sinais.

Posso alertar, posso partilhar o meu testemunho, posso pesquisar sobre a doença que o levou a matar-se, posso tentar levar um pouco de conforto aos corações de quem precisa de mim. Posso honrar a morte do meu filho em vida, com a minha. Cumprir com o pedido que ele nos deixou escrito, onde nos pedia para sempre o lembrarmos. Não o que ele fez, mas sim o que ele foi. O que simbolizou nas nossas vidas.

Tenho consciência que a mensagem não entrará no coração de todos, mas certamente entrará no coração de quem realmente precisa.

Não o faço para realização pessoal, mas sim porque sou mãe e acima de tudo sou um ser humano.

Quando tu te dás conta que não há forma nem maneira de teres o teu filho de volta. É quando tu te consciencializas que a vida é mesmo dura e revoltante e obrigas-te a dar o outro lado da face.

Desistir nunca!

Ontem mesmo tive uma mãe que me enviou uma mensagem, dizendo que desde que o Pedro partiu, o assunto nunca mais foi abordado em casa devido ao sofrimento que causava à sua filhota. Ao que a mesma fica admirada quando a menina ontem mesmo dia 24 de Novembro refere à mãe que fazia 6 meses, que o seu amigo, teria partido. A mãe ficou admirada pela partilha da filha.

Agradeci a partilha do acontecimento, porque sei que o meu filho era o que pretendia. Jamais ser esquecido.

Para sempre lembrado e jamais esquecido recuso abandonar-te.

Amo-te imenso filhote.

Com amor e um profundo agradecimento a todos os que se lembram do meu filho Pedro,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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