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Em busca da verdade!

Ontem vivi um dos dias mais difíceis da minha vida. Eu sabia que chegaria este dia, mas o que eu nunca pensei, foi que seria tão cedo.

O teu irmão  Francisco,  quis saber a verdade sobre a tua morte, Pedro.

Eram 21 horas, e eu fui aconchega-lo na cama como sempre faço. Quando sou abordada mais uma vez com um “senta-te aqui mãe. Preciso de falar contigo uma coisa”.

Desta vez, confesso, que não suspeitei que fosse a conversa que há tanto tempo eu evitava. “O momento da verdade!”

Uma verdade, que nos foi aconselhado pelos psicólogos a não contar ao teu irmão, por ser uma verdade muito violenta, para uma criança que havia feito há um mês e 11 dias, 8 anos, naquela altura.

Sentei-me ao seu lado na cama, e ele olhando nos meus olhos, pede-me a verdade.

– Mãe! Diz-me a verdade acerca do que aconteceu realmente com o mano Pedro.

Fiquei muda, por breves momentos e no meu pensamento não cabia a ideia de lhe ter que contar tão dura verdade. Pelo menos não para já.

– Como assim? – respondi eu.

– Mãe! A verdade! Eu preciso de saber a verdade. Tenho esse direito. Não me mintas. O mano, não caiu, pois não?

Engoli em seco e tentei mais uma vez camuflar o episódio que levou o nosso Pedro de nós.

Respondi – Filhote. Já expliquei. O mano caiu a tirar uma fotografia. Porque é que estás novamente a tocar neste assunto? Porque é que é assim tão importante para ti saberes a verdade acerca da partida do mano?

E o Kiko olhando para o teto do seu quarto, responde-me – Porque preciso de saber mãe. Porque preciso de saber o que aconteceu, como aconteceu. Porque aconteceu. O Pedro é meu mano e eu tenho esse direito.

Realmente, ele tem esse direito. Mas é tão pequeno e não quero que ele sofra mais do que já tem vindo a sofrer.

Olhei bem fundo nos olhos dele, e consegui ver o mesmo olhar do meu filho Pedro. Senti-me encurralada. Asfixiada. Na minha mente só pairava um pensamento. Meu Deus, como és tão parecido com o mano. Parece, que o estou a ver neste preciso momento, quando era da tua idade. Que dor, que medo. Como faço meu Deus. Conto? Conseguirá o meu menino processar tudo o que aconteceu? Eu não o quero novamente frágil, perdido. Como faço?

E mais uma vez, o teu irmão, investe com toda a sua certeza de que precisava ouvir a verdade.

– Mãe! A verdade! – Mãe, não me mintas! Eu quero a verdade!

Mas eu não fui capaz…. Pelo menos, não naqueles primeiros minutos. E mais uma vez respondi: – Kiko. Existem certas verdades que são duras demais para os pequeninos. Existem certas verdades, que não podem ser ainda contadas. (Mas ele não aceitou).

– Mãe! Eu não quero saber se sou pequeno. Eu preciso de saber o que aconteceu. O Pedro é meu irmão. E eu preciso saber. Conta-me a verdade. Mãe! A verdade.

E eu não consegui mais evitar e comecei por dizer que o mano Pedro havia desistido de viver.

– Kiko. O mano não caiu do prédio. O mano jogou-se do prédio. E a queda provocou a sua morte.

Neste momento, o Kiko ficou sério, de olhos bem abertos, como se tivesse ficado congelado no momento. Os seus olhos encheram-se de lágrimas e antes mesmo de começar a chorar…. Perguntou.

Kiko – Porque é que o mano Pedro fez isso mãe? Porque é que ele se matou?

Eu – Porque o mano Pedro estava doente. (respondi).

E as questões foram surgindo, uma a seguir à outra.

Kiko – Como assim doente?

Eu – Sim Kiko. O mano Pedro estava muito triste. O mano tinha Depressão.

Kiko – Depressão? O que é isso? Nunca vi o mano doente mãe.

Eu – A depressão é um estado de tristeza muito profundo, em que a pessoa não consegue gerir tudo o que acontece ao seu redor. E por isso pensa que a morte é a melhor escolha para acabar com o seu sofrimento.

Kiko – Mas mãe! Como sabes isso?

Eu – Sei, porque o mano Pedro deixou tudo escrito.

Kiko – Como assim deixou escrito?

Eu – O mano Pedro tinha um caderno onde escrevia tudo o que sentia.

Kiko – Mas mãe… O mano foi ao médico. Porque não viram que ele estava doente?

Eu – Kiko. Porque o mano mentiu à médica. O mano não quis a ajuda da mãe e do pai.

E neste preciso momento, o teu irmão Francisco, começou a chorar imenso, dizendo que não entendia porque o mano nos tinha abandonado e terminado com a sua vida. Ele pensava que tu eras feliz. Que tu não podias ter feito isto.

E neste momento, eu intervenho, dizendo-lhe que te havias arrependido do teres feito. Que havias dito, durante o socorro, que terias sido burro em ter feito as coisas daquela forma e que perguntavas a ti mesmo – “O que é que eu fiz?” E o Kiko faz nova questão.

Kiko – O mano arrependeu-se? Como sabes, mãe?

Eu – Porque os profissionais que o socorreram, me disseram. E o mano David estava lá.

E o meu Kiko reage de uma forma aflitiva…

Kiko – Como assim, o David estava lá? O mano David esteve com o mano? Viu o mano?

Eu – Sim meu amor. O mano David foi o primeiro de nós a chegar ao pé do mano e o único a falar com ele.

E surge mais uma questão… – Mãe! Porque levaste mais de um ano para me dizeres a verdade? Porque não me disseram logo?

Eu – Kiko. Porque tu és pequeno, e na altura eras ainda mais pequenino. Porque os médicos aconselharam-nos a não te dizer a verdade tão cedo.

Kiko – Mãe! Os médicos sabem lá essas coisas. Eu precisava de saber a verdade. Eu tinha esse direito. (chorando)

Eu – Kiko. Tu nunca havias passado por uma morte. E principalmente uma tão séria, como foi a do mano Pedro. Deixa-me fazer-te uma pergunta. O que era para ti a morte Kiko?

Kiko – Morrer, para mim era, terminar aquela vida e logo ter outra a seguir. Como nos jogos.

Eu – Exato! Mas agora já sabes que a morte é algo bem mais real. Bem mais séria. Certo? Sabes agora, que quando alguém morre, não volta. Não o vês mais. Certo?

Kiko – Sim mãe. A morte de quem amamos é muito dura.

Eu – Ok. Então, consegues entender, porque não te podia dizer, que o mano teria desistido de viver? Vê bem… Ele não teve um acidente. Ninguém lhe fez mal. Ele não morreu com nenhuma doença, tipo, o cancro. A doença dele, era uma tristeza profunda. Eu não te podia contar a verdade naquela altura.

O Kiko, perante esta minha explicação, abraçou-se a mim com força e chorámos juntos. Sentindo o seu rosto quente, mesmo que humedecido pelas suas lágrimas, foi mais forte do que eu, e pedi-lhe que me prometesse algo muito importante. Nesse momento, o meu pequeno Francisco, com a suas mãos delicadas, fazia-me festas no rosto e penteando o meu cabelo com os seus dedos, olhou-me nos olhos, como se me visse no fundo da alma. E eu fiz o pedido.

Eu – Kiko! Promete à mãe, que nunca vais fazer o que o mano fez. Promete à mãe que sempre que tiveres algum problema, ou estejas triste por alguma razão…. Irás procurar falar com a mãe ou o pai. Kiko!  A mãe não pode perder mais ninguém! A mãe não consegue ficar sem mais nenhum de vós. Por favor, promete.

E o Kiko enxugando-me as lágrimas, respondeu-me: – Mãe! Eu prometo! Eu falarei sempre contigo ou com o pai. Eu nunca te vou deixar mãe. Eu não farei o que o mano Pedro fez. Eu vou estar sempre aqui mãe.

Chorei agarrada a ele. Beijei-o, acariciei-o e disse-lhe que o amava demais. E eis que surge o Kiko de sempre…  – Mãe! Eu amo-te mais!

Nisto, levanta-se da cama e vai à sua mochila buscar um pacote de lenços de papel, para me enxugar as lágrimas. Um gesto, que lhe agradeço no imediato e ele termina dizendo.

Kiko – Mãe! Obrigado, por me teres contado a verdade. Obrigado por teres aceite ter esta conversa comigo. É muito importante para mim. Obrigado.

Fiquei silenciosa, enxugando as lágrimas e recompondo-me para lhe dar as boas noites e sair do seu quarto. Perguntei se ele ficaria bem. Se estaria pronto para ir dormir. Questões, às quais ele me respondeu afirmativamente. E eu apaguei a luz e saí.

Todos os dias sou colocada à prova, por esta ou aquela razão. A verdade, é que uma mãe ou um pai, têm que ter uma grande capacidade de adaptação à nova realidade e ainda terem a força necessária para esclarecer as dúvidas dos outros filhos e dos demais.

Dúvidas, verdades, medos, incertezas, saudade, tristeza, e mesmo assim temos que seguir em frente e ajudar.

Não é nada fácil! E acima de qualquer expetativa, ainda temos que tentar viver bem no seio familiar e envolta de uma sociedade apressada, e muitas das vezes, isenta de compaixão pelo outro ser humano.

Ontem foi mesmo difícil de processar. Ontem senti-me novamente desolada. Como se me sentisse culpada, por destruir a inocência de um menino tão pequeno como o meu filho. Um menino, de apenas 9 anos.  Um menino que me pediu a verdade e eu apresentei-lha.

Neste momento, devo processar uma coisa de cada vez, e ficar atenta a tudo o que acontece ao meu redor. Devo ficar atenta ao Kiko. Mas a verdade? É que, o teu irmão Francisco, mais uma vez, conseguiu surpreender-me pela positiva.

Sou imensamente grata a ele, por ser um menino tão doce, quanto delicado.

Amo-te Francisco Daniel.

Quanto a ti filhote Pedro, ficam tantas coisas por realizar, tantas coisas por dizer, como por exemplo o dia de hoje, por viver.

O dia do Pai. Lembras-te?

O dia para o qual foi marcada a tua primeira e única consulta de psicologia no HFAR, hà dois anos. Aquela em que tu ditaste a tua sentença, quando recusaste a ajuda que te foi oferecida.

Um dia em que tiveste a companhia do pai só para ti. O último dia do pai, em que o pai pôde festejá-lo contigo.

Nunca mais este dia foi vivido com o mesmo sabor e a mesma intensidade. É um dia difícil para o teu pai. Mais um, de tantos outros que irão ficar por viver na tua companhia.

Um dia que transformaste a vida do teu pai ao nasceres e ao morreres.

Com saudades tuas meu amor, e um amor interminável da tua mãe.

A mãe do meu filho tem asas

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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