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Como faço para deixar de pensar a toda a hora no mano Pedro?

Deixa-me contar-te como foi o nosso dia de hoje Pedro.

Levantámo-nos todos de manhã para levarmos o teu mano Francisco ao seu primeiro jogo de Basquetebol. Ele estava imensamente ansioso por essa oportunidade, que até se enganou no dia e ontem de manhã, a primeira coisa que me disse foi:

–  Mamã, temos que nos despachar. Tenho jogo às 09h00.

Foi logo motivo de risota, porque ele nem na hora de levantar estava, e já queria ir para o jogo um dia antes.

Hoje, ele jogou com paixão, encestou e vibrou em cada salto, cada cesto, cada salva de palmas que eu lhe dei. Mas o que ele queria muito é que tu também lá estivesses estado.

Durante todo o jogo, eu mentalizava-me que tu o ajudavas a driblar, a encestar. Os quatro desejávamos que tu ali estivesses.

O mano David, por exemplo, partilhou connosco cada momento, cada história que viveu contigo naquele recinto da escola. O mesmo em que eu estive presente quando os teus amigos te quiseram homenagear com as musicas e um minuto de silêncio. É Duro Pedro! Duro demais, viver cada segundo sem a tua presença. Ouvir as histórias, as lembranças que ficaram gravadas em cada coração que tu tocaste.

Tentamos levantar a cabeça e respirar, mas o ar teima em passar pelas vias normais, porque dói. Dilacera, como se de objectos aguçados se tratassem. Não consegui evitar de chorar hoje meu amor e olha que eu bem tento evitar. Mas hoje não deu.

O teu mano Kiko já só me questiona, como faz para te tirar da sua cabeça. Que não consegue deixar de pensar em ti, que é só “Pedro, Pedro, Pedro” a toda a hora.” Mãe ajuda-me diz-me ele”. 

“Como faço para deixar de pensar a toda a hora no mano Pedro?”

E derruba-me no chão com os seus pedidos de ajuda!

Tento ajudá-lo da melhor maneira que consigo, dizendo-lhe que não tenho esse poder. que só depende dele. Agora diz-me! Como fazer com que uma criança de oito anos pense pouco num irmão do qual ele sente falta em sua vida, na partilha das suas vitórias do dia-a-dia.

Que herança Pedro! Que herança!

Cada foto que tiro aos teus irmãos faz-me acordar para a dura realidade que não te irei poder tirar mais fotografias como tu tanto adoravas e eu amava. Não poderei ver as diferenças de mês para mês, de ano para ano. Cada foto que tiro aos teus irmãos é uma constatação de que tu não estás mais aqui, porque só partilho fotos de dois filhos e não de três como eu gostava.

Não aceito de todo, esta dura realidade! Não a quero para mim!

Fiz castanhas assadas e tu não estavas. Inspirei, lamentei silenciosamente e não pude deixar de ficar triste. Tantas tradições que deixaram de ter o mesmo gosto.

Não é falta de força que eu tenho, embora não me ache assim tão forte, como me dizem, mas também tenho os meus momentos de tristeza e agonia. Nem sempre olho para as tuas fotografias com um sorriso. Posso dizer-te que tem dias que a única coisa que consigo fazer é o de chorar sempre que olho nelas. Aquele sorriso Pedrocas, meu Deus! Como foi possível vivermos tantos anos envoltos naquele sorriso e teres-nos escondido o verdadeiro sentimento mascarado por trás do mesmo.

Passei a colocar à prova todas as leis da natureza! Passei a duvidar de cada frase que me possa ser dita por trás de um “estou bem” com um sorriso.

Tenho tantas mas tantas saudades tuas, que tem dias que custa levantar e reagir. Mas não te preocupes, eu obrigo-me.

Amo-te hoje mais do que ontem e muito menos do que amanhã.

Com saudades,

A tua mãe.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Cristiana Sousa says:

    💙

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