Amor, Auto-ajuda, Esperança, Luto, Pedro, Saudade

Coisas tão banais que nos magoam tanto

Hoje enquanto jogava matraquilhos com o Manuel, a Catarina, e o João, o Manuel partilha connosco que está imensamente feliz porque amanhã irá comer a sua pizza favorita, a de chocolate. Fiquei imóvel, os meus olhos encheram-se de lágrimas e tive que fazer força para não chorar. Não tinha como explicar a crianças tão pequenas porque havia ficado triste com uma partilha tão feliz do Manuel. Mas a verdade é que me entristeceu imenso.

Era um desejo que o meu filho Pedro tinha e que nunca realizou. Era um desejo que eu tinha em partilhar com ele no seu aniversário dos dezanove anos que viria a ser fatal. A minha mente não parou mais e transportou-me para a minha estante na cozinha onde tenho até hoje as tabletes de chocolate que comprei para fazer uma tarte de chocolate com os três tipos, de leite, negro e branco. A massa foi directamente para o lixo quando me dei conta que tinha passado cerca de duas semanas e a mesma não estava mais dentro do prazo de validade. Já os chocolates continuam intocáveis na estante e certamente irão ficar por lá, porque ainda não tive coragem de fazer a tão deliciosa tarte que queria fazer de surpresa ao meu filhote Pedro no seu décimo nono aniversário.

Momentos tão banais que não voltam mais e que me ferem tanto, sem que a culpa esteja do lado de ninguém, a não ser que muitas coisas se ficaram por fazer e dizer numa história que não tem mais continuação. Eu tenho as minhas e você terá as suas, como os demais.

Coisas tão banais, que enquanto para uns são momentos de êxtase, para outros são momentos que nos ferem demais. Não há forma de se superar.

Ontem mesmo, a minha médica enquanto falava comigo, me dizia que esperava nunca ter que passar por uma dor igual à minha. Que gostava de me ver, que eu estava mais animada e enaltecia-me em relação à minha beleza. Ficara maravilhada com o meu cabelo e só me perguntava se eu teria ido ao cabeleireiro.

Fez-me rir. Porque de facto não havia tido cuidado com nada e acabara de sair do trabalho para ir para a sua consulta.

Partilhei com ela o meu dia-a-dia e ela mesma me dizia com todas as palavras.

“Não desista Rute! Continue tudo isso que se encontra a desempenhar, tudo isso que a faz mover e colocar para cima. Não se isole em casa e muito menos num sofá ou numa cama. Gosto muito de a ver mais leve como está e o trabalho está a fazer-lhe muito bem, mesmo que se sinta muito cansada. Vou ajuda-la. Vou passar-lhe umas vitaminas para arrebitar um pouco mais e ser mais fácil.”

“Dou-lhes os meus parabéns porque a Rute encontrou uma forma de se recuperar dessa perda que será irrecuperável, mas que com a sua força e empenho será muito menos tortuosa.” Continue! E da próxima vez quero vê-la ainda mais leve! Prometa-me!”

Dei-lhe um abraço e vários beijinhos, porque senti que era sincero da sua parte aquele desejo de me ver bem.

No fundo é o que eu quero para mim! Desligar-me desta dor que me consome muitas vezes. E digo muitas vezes e não em todas, porque a minha teimosia não me deixa desistir.

No outro dia a querida Clara, me questionava como eu conseguia seguir a minha vida, se ela que havia perdido os seus pais há já 27 anos não o conseguia.

Respondi-lhe que não era fácil, mas contei-lhe um segredo meu.

Nos momentos em que se torna difícil demais aguentar a saudade e a falta que o meu filho me faz, eu faço de conta que o meu filho não era meu. Faço um esforço para não pensar nele, ou então penso somente no que de bom eu pude viver com ele, em todos os sorrisos que partilhámos, em todas as alegrias que vivemos e o resto meto em pausa.

Ela respondeu-me que não sabia como eu conseguia, que era mesmo uma pessoa imensamente forte e que ela não conseguia ser assim.

Acredito! Acredito porque sei que somos todos iguais e desiguais ao mesmo tempo. E que não existe forma de sabermos como iremos reagir a determinado acontecimento em nossas vidas, a menos que passemos por ele.

Eu não amo menos o meu filho por enganar o meu cérebro na forma em como penso nele.

Eu sobrevivo, é à minha maneira, de forma a não me permitir desistir.

Mas não pensem que não tenho os meus momentos de imensa dor em que me chega a faltar o ar e o meu peito aperta como que se o coração fosse saltar para fora do mesmo. Fico tonta, fico sem ar. Deixo de conseguir engolir a minha própria saliva e o choro transforma todo o meu corpo em dor permanente e numa completa e profunda solidão.

Não sou a única mãe a sentir isto sabiam?

Existem tantas por aí que ninguém nota, que ninguém vê, com quem ninguém se importa de verdade.

Mas eu importo-me e é por isso que descrevo o que eu sinto, para que não se achem diferentes, porque a realidade é que todas pensamos da mesma forma, do mesmo jeito e não é pecado nenhum fazê-lo.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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