Saudade

Chora o que tiveres que chorar, grita o que tiveres de gritar, mas não te permitas desistir.

Cada minuto em que remoo o passado, roubo na verdade tempo ao meu futuro. Infelizmente não existem soluções que resolvam atitudes, gestos ou vivências do passado.

A morte do meu filho Pedro por exemplo, eu não consigo resolver, ou simplesmente fazê-la desaparecer, tornando-o vivo novamente.

Deste modo, e tendo em conta a verdade intemporal, em que nos envolvemos quando passamos o dia inteiro somente a pensar na morte de um filho, estamos a viver tudo vezes sem conta e não nos é saudável. Eu não quero viver agarrada ao passado nem ter que passar por tudo novamente. É por isso que apesar de nem todos me acompanharem no meu pensamento, eu sigo o meu próprio caminho.

O meu filhote morreu, mas o que me ensinou ele com a sua partida?

Posso fazer alguma coisa para alertar outros pais?

Posso evitar que outras pessoas tenham o mesmo fim?

Conseguirei eu evitar que outras famílias passem pelo mesmo?

Não sei! Sinceramente, não depende somente de mim.

Se eu posso crescer interiormente? Sem dúvida!

Posso agarrar em todas as memórias que tenho com o meu filho e usá-las de forma positiva na minha vida.

De que forma?

Estando atenta aos jovens de uma forma geral e acima de qualquer coisa, estar atenta aos meus dois filhos que estão vivos e lutam todos os dias por se manterem equilibrados. Também a eles não lhes foi questionado se queriam passar por todo este processo de luto. E Deixem que vos diga. Eles precisam de mim. Precisam que eu esteja pelo menos de forma equilibrada para lhes responder a todos os seus estímulos.

Já tive muitos momentos baixos e de desespero total, e mesmo hoje em dia tenho recaídas sim. Mas depois sou agitada por algo mais forte do que eu, e sou obrigada a reagir.

Em nome do amor que tenho por mim, que tenho por ele, pelos meus filhotes, pela minha família.

O Pedro está sempre presente no meu discurso e eu não tenho que ter vergonha ou receio de falar nele. Mantenho-o vivo, não só na mente e no meu coração, mas também no meu dia-a-dia.

Ele foi importante e irá continuar a ser, enquanto eu o mantiver vivo no meu discurso e na minha vida. Tento olhar para a morte dele com uma visão diferente da de ser só perda, tristeza e angústia. Tento usar a morte dele, o seu sacrifício humano, para ajudar outras vidas. É essa a missão que eu abraço.

A despedida dele do mundo terreno é usada por mim como forma de salvação a todas as vidas que desejam ser resgatadas da tristeza e depressão.

Se irei ter sempre sucesso? Não. Infelizmente não! Mas eu como ser humano, como mãe, não posso fechar os meus olhos e pensar que eu já o perdi e deste modo não me resta mais nada. Ou que porque já perdi o meu filho, não me interessa que outros pais sofram o mesmo que eu. Este pensamento está errado! E não o defendo em nada. Não me fecharei dentro da ostra só porque deixei cair e perdi uma das minhas pérolas.

Sabiam que existem psicólogos, investigadores na área da saúde e escritores que defendem que é muito importante, todos termos um diário pessoal?

Eles defendem, que usar somente 15 minutos por dia a escrever num diário pessoal, pode melhorar a sua saúde, o funcionamento do sistema imunitário e a sua atitude em geral na vida.

Como?

Escrever promove o seu próprio desenvolvimento pessoal para que possa usar o seu passado de forma a ter mais sucesso no futuro.

Repare!

Se você reflecte sobre a sua vida, então vale sim a pena escrever acerca dela. Eu por exemplo já venho usando diários desde criança e hoje fico imensamente satisfeita porque me deparo com situações que são defendidas por profissionais e que já venho aplicando há imenso tempo.

Neste momento uso os meus diários como forma de processar a dor do meu luto, já me encontro no meu 5º diário desde a morte do meu filho Pedro e praticamente a terminar o mesmo. Neles, escrevo muitos textos que não partilhei convosco, e outros que partilho. Contudo escrevo na mesma e busco em cada palavra a força necessária para seguir esta caminhada de forma mais leve. O que eu vejo? Vejo um crescimento pessoal, vejo uma força a crescer dentro de mim, vejo que cada lágrima derramada foi importante e continua a sê-lo de forma a eu me tornar mais forte. Encaro o escrever como um processo de auto-cura, ajudando-me a libertar parte da dor que me consome.

Experimente! Não custa nada.

É importante falarmos do luto de forma a não sermos consumidos pelo mesmo. É um processo imensamente doloroso e insuportável na maioria das vezes. Porque existem os altos e baixos, e não temos que nos sentir envergonhados por isso. Somos seres humanos. Temos o direito de sentir.

O processo do luto é difícil sim, não só porque somos privados de nossos filhos e ou familiares que amamos imenso, mas principalmente porque a vida continua para nós. As pessoas que vivem ao nosso lado com vidas paralelas às nossas continuam suas vidas, adversas muitas vezes ao nosso sofrimento. E tudo isso custa-nos demais. Não é pelo facto de irmos a um café ou de nos verem vestir cores na rua, a dar uma gargalhada, que nos faz menos ser humano que vocês. A nossa luta é diária. É horrível! Mas mesmo assim temos que ter força para continuar. Não queremos que tenham pena de nós. Queremos somente que respeitem todo o nosso processo que é imensamente cruel e igualmente longo.

É importante, não nos privarmos de manifestar a nossa dor. Mesmo correndo o risco das pessoas que vivem felizes e completas não te compreenderem, é mais que urgente tu mesma não desistires de lutar e seguir em frente. Não vai mudar nada do que te foi imposto pela morte, apareça ela de que forma aparecer, mas irá ajudar-te a olhares para a tua vida de forma diferente, cuidando de ti, para que possas cuidar dos outros.

Nem sempre pensei assim, nem sempre tive esta força, mas obrigo-me a reagir, a não desistir.

Aceito a força e a determinação que o meu Pedro tinha e aceito-a como minha. Ele pediu e deixou escrito para todos festejarem a sua vida e não chorarem a sua morte.

E é a isso que eu me agarro todos os dias.

É a minha forma de o amar, mesmo após a sua partida.

Ele, vos garanto com todas as letras, que não me iria querer ver afundar-me no desgosto de não o ter mais neste plano.

Amo-te hoje mais do que ontem e muito menos do que amanhã minha Rocha.

Com amor e imensas saudades,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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