Luto Morte Pais Saudade Tristeza

Chegam até mim, testemunhos cruéis.

Chegam até mim, testemunhos cruéis.

Chegam até mim, almas sofridas com a dor pela perda de alguém.

Chegam até mim, mães que como eu perderam a verdadeira vontade de sorrir, sonhos destruídos pela vontade de alguém em seguir.

Chegam até mim, testemunhos de mães que viram os seus filhos desistir.

Chegam até mim, testemunhos de mães que viram os seus filhos sucumbir a uma doença terrível qualquer.

Chegam até mim, testemunhos de mães que viram os seus filhos serem colhidos nas estradas, em passeios, em festas, durante um jogo de futebol.

Chegam até mim, porque como eu, todas partilhamos do mesmo destino, ainda que a dor seja diferente. Porque todas somos seres diferentes.

Chegam até mim, mães que não pretendem desistir, e outras que não querem mais viver com a ausência de seus filhos.

Chegam até mim, corações que passaram a sangrar diariamente e sem visão para o futuro vão sobrevivendo de uma forma bastante difícil que para todos vocês é difícil de compreender.

Todas nós procuramos alguém que nos compreenda de verdade, que nos aceite como estamos, mesmo que algumas de nós não queiramos desistir.

E é por isso que eu hoje escrevo este texto.

Voltar à nossa vida é essencial, mesmo que agora não o consiga ver nem sentir.

Eu também já passei por esse processo de querer desistir de tudo o que me fazia sentir acordada. Não queria nada. Não queria sentir nada. Nem dor, nem fome, nem sede, nem preguiça, nem medo, nem saudades. NADA! Não me apetecia sequer levantar da cama. Mas 15 dias depois de perder o meu filho, dei-me conta que ir trabalhar era importante para mim, mesmo que não tivesse vontade de ver as pessoas na rua, no supermercado e muito menos na televisão, onde quase tudo é vivido através de uma tela e a cores.

Todos os dias me levantava de forma a ir procurar forças em duas bebés que tanto amo.

Mais tarde elas tiveram que ir para o infantário e eu vi-me novamente a ficar sem esperanças.

Mas surgiram duas oportunidades e eu abracei-as. Hoje tenho objectivos.

Sei que muitas de vós não tem energia para reagir assim, a estes estímulos, mas sei igualmente que existem outras mães que conseguem como eu seguir, procurando pequenas fracções de luz que nos traga um pouco de serenidade.

É importante passarmos ao activo rapidamente! Voltar ao trabalho! Criarmos de novo os hábitos que parámos de seguir. É importante voltar a reagir para que não nos afundemos em desgosto profundo e deixemos de ter forças sequer para sair da cama.

É importante procurar algo que goste de fazer e que lhe traga um novo estimulo à sua vida.

Tomar esta acção não diminuirá a sua dor, mas fará a sua mente ocupar-se com outra coisa para além do sofrimento com que é obrigada a viver diariamente.

Eu defendo e tenho dito imenso a quem me questiona, como é que eu consigo ir trabalhar, que é trabalhando e ocupando a mente que me mantém viva.

A saudade e a tristeza estão presentes sim, mas o facto de te envolveres diariamente com outras pessoas que não somente os membros enlutados da tua família, faz-te ter vontade de viver por mais ínfima que ela seja.

Há sempre uma colega ou um colega que te fará rir, com quem partilharás uma parvoíce qualquer, há sempre uma colega que te irá ouvir se precisares de desabafar. O infortúnio já te levou tanto, não deixes que te leve a ti também para longe de quem ainda precisa de ti e onde o sentimento que os une é mútuo.

Podes não ser agradável a todos, contudo a tua falta irá ser sentida por alguém que se cruzou na tua vida. Não desistas de tentar. Tenta de novo quando este plano falhar. Procura cansar o corpo para que a mente não tenha tempo para pensar em nada, e assim quando chegares à noite à tua cama irás conseguir dormir.

É importante conseguir! Liberta-te gradualmente dessa dor que te aprisionou com a morte do teu filho ou da tua filha.

É importante voltares a amar-te em pleno e pensares que ainda tens toda a tua vida para viver.

Acredita que não há forma melhor de homenagear um filho ou uma filha que morreu.

Vive para que ele e ela se mantenham vivos no teu coração.

Enquanto amarmos e nos lembrarmos dos que partiram, eles viverão connosco e jamais serão esquecidos.

Com carinho e inúmeras saudades do meu filho,

A mãe do meu filho tem asas

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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2 Comments

  1. Fátima Gonçalves says:

    Deus, por certo, não quereria que ficássemos sem os nossos filhos…

    Querida Rute (permita-me que a trate assim),

    Também eu e o meu marido vimos partir a nossa Querida Rita, às 17h30 do dia 4 de novembro de 2004…

    É a nossa única filha.

    A nossa vida nunca mais foi a mesma, tentámos sempre, sempre recomeçar a viver a dois mas a nossa vida nunca mais foi a mesma.

    Somos uns pais já com 63 e 65 anos, a nossa Rita tinha 19 anos quando uma leucemia que teimou em migrar para o sistema nervoso central a levou. Estava doente há quase cinco anos.

    Era uma jovem tão bonita e tão bem disposta, tinha os olhos da cor do mar, era uma ótima aluna, no ano em que partiu tinha completado o primeiro ano de medicina na Beira Interior. Deslocava-se a Lisboa todos os finais de semana e fazia os seus tratamentos de quimioterapia.
    Adorava a mãe e o pai.
    Adorava o seu carro, deslocava-se com alegria entre Lisboa e a Covilhã.

    O meu marido é um homem reservado, ficou ainda mais reservado. Oriundo de uma família pouco agradável, pouco amistosa, onde a Rita que estudava medicina, era um pouco pedante, e que segundo eles não sofria de nada grave, morreu. Os avós, os tios e os primos estiveram com ela no dia do seu funeral, mas a partir daí já nada era importante, a Rita morreu? E depois? Terá dito a minha cunhada… o meu irmão agora só tem de se lembrar que tem 3 sobrinhos…

    Comigo a história de vida é bem mais complicada, nunca conheci os meus pais biológicos mas aos 16 anos descobri que a Senhora a quem chamava mãe não o era de facto. Foi uma infância e uma adolescência muito complicada, só com a mãe, a única que conheci e a quem tinha de obedecer cegamente, caso contrário, havia agressão física e verbal.

    As agressões eram diárias, a desconfiança era permanente, a Senhora não confiava em ninguém…foi um calvário.

    Zangava-se imenso comigo, detestava o meu marido com quem casei em 2014.

    A minha mãe partiu em 6 de abril de 2013, tinha a sua neta à espera dela… fui eu que tratei dela, com a ajuda de uma empregado até à véspera de ela partir.

    Morreu sem nunca me ter dito quem eu era, quem eram os meus pais, se estava certa a minha data de nascimento, a comemoração é num mês, o registo é noutro… tive sempre esperança que no final da vida ela me dissesse alguma coisa sobre as minhas origens, mas a esperança também morreu…

    Tentámos em 2006 a adoção de dois irmãos. Ambos tinham problemas de saúde mental. Cinco anos depois de terem vindo e depois de muita intervenção policial foram sinalizados pela Seg. Social e o CPCJ retirou-os de casa por colocarem em perigo a família. Tínhamos tanto medo deles que dormimos um ano com a porta do quarto fechada. Tentámos tudo para que eles encarreirassem numa vida que não fosse a marginalidade, mas eles não conseguiram absorver o que os pedopsiquiatras lhes diziam, mentiam aos psicólogos, mentiam compulsivamente… enveredaram por caminhos, ainda adolescentes muito perigosos, a polícia começou a rondar a porta e tudo foi muito complicado. Em 2011 foram retirados à família, são nossos filhos, mas não sabemos nada deles, nada.

    Claro que a família do meu marido ficou bastante irritada, agora os meus sobrinhos não têm nada para herdar, há dois filhos… segundo eles fomos muito estúpidos em ter feito o que fizemos.

    Comigo, como não tenho qualquer família, pouco importa!

    De novos ficámos só os dois.

    Doze dias depois de a Rita partir voltámos ao trabalho.

    Dois anos depois quando a garota de uma vizinha minha chamava pela mãeeee… eu também saía para o quintal para perguntar -o que é?

    Durante muito tempo tive necessidade de ir ao Cemitério muitas vezes, de mandar rezar Missa sempre ao dia 4 de cada mês, mas com o passar dos anos fui conseguindo ultrapassar a obsessão de tais atos, nós amamos incondicionalmente os nossos filhos, não precisamos de obrigar os outros a estarem presentes em rituais que só a nossa cabeça concebe.

    A minha vida nunca mais foi a mesma, continuo a trabalhar, o trabalho ajuda a estar ocupada durante a semana e a dar uns passeios na hora do almoço, no entanto estou sempre desejosa de que seja fim-de-semana para poder estar em casa descansada e a fazer o menos possível.

    As saudades da minha Rita… essas aumentam a cada dia que passa, a cada ano que passa, todos os dias a recordo e muitas vezes com gosto. As suas palavras em pequenina, as suas decisões em crescida, o namorado com mais dez anos do que ela…

    É com muita, muita saudade que a recordo, penso sempre muito sobre o tema “Será que há vida para além desta vida terrena”? E tem sido acreditando que este lindo Planeta Azul não é o fim que eu tenho vivido os quase 16 anos de ausência da minha querida filha.

    Aqui talvez eu possa dizer “Que Deus A Tenha em Paz”

    Eu quero acreditar…

    Querida Rute, esta sou eu a Fátima. Gosto muito do que escreve e tenho muito respeito por si.

  2. Clara Cunha says:

    Que relato comovente e tao bem escrito.Fiquei emocionada….Nao me conhece de lado nenhum,mas mesmo assim desejo lhe muita força e coragem.
    Clara Cunha

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