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As várias formas de vivermos o luto

Já tenho vindo a dizer e volto a referir.

O processo do luto é todo ele desgastante. É dramático o momento da perda e os acontecimentos que se seguem. É terrível demais o confronto a que somos colocados perante o facto de nos ser impedido de mantermos os laços que tínhamos com esse maravilhoso ser, através de carinhos, sorrisos, conversas, um abraço, cozinhar para eles e acompanhando a pessoa em todo o seu processo de existência na qual éramos um papel fundamental.

O prazer que tínhamos pela vida em relação a pequenas e simples tarefas, como acordar de manhã e ir para o trabalho, cuidar do marido, do pai, da mãe ou de um irmão é rompido pelo choque em que somos envoltos naquele momento.

A roupa amontoa-se, a casa fica por arrumar, deixamos de cuidar da nossa imagem, envelhecemos fisicamente, deixamos de ter vontade de sair e estar com amigos. Pequenas actividades que fazíamos com imenso gosto anteriormente.

Por vezes questionamo-nos como a pessoa consegue mesmo viver perante tal privação.

A verdade é que o processo do luto é muito própria e individual, pelo que somente a pessoa que sofre com a perda e a vive de acordo com a intensidade que lhe administra, consegue na verdade responder. E acreditem que não existem respostas erradas!

Cada um vive o seu luto da forma que consegue. É muito importante para quem o vive, ser respeitado, e para quem o observa, respeitar, mesmo que também tenha sofrido com essa perda.

É realmente importante que o processo do luto seja vivido, leve o tempo que levar. Para uns pode ser durante meses, para outros durante semanas, para outros durante anos e para outros o resto de suas vidas.

Cada um pode vive-lo de forma diferente!

Uns isolam-se de tudo e de todos e recusam-se a falar. Estabelecendo uma ligação somente com o morto em que se recusam aceitar que ele morreu.

Outros precisam de falar sobre o morto de forma a mantê-lo vivo no seu dia-a-dia e chegam mesmo a estabelecer diálogos mentais e por vezes verbalizados com a pessoa que já partiu.

Outros não conseguem passar sem ir todos os dias visitar o seu familiar ou amigo à campa porque se sentem perto deles. Cantam-lhes, falam com eles, lêem um livro, levam flores e tratam da campa, investindo toda a sua energia naquele momento como se tivesse na verdade a tratar da pessoa amada.

Outros ainda, fazem o processo do luto em dias e quando tomam a coragem de sair para a rua e de enfrentarem as pessoas, fazem-no com uma mente aberta, mostrando que a vida continua e que a morte não devolve ninguém e que deste modo o seu caminho continua, por isso não irá desperdiçar um só segundo a chorar e a lamentar o que lhe foi privado.

São tantos os processos de luto pelo qual qualquer pessoa pode passar que nem temos noção. Porque conforme já vos referi com tudo o que tenho lido e pesquisado e acreditem quando vos digo que me tem ajudado imenso. O luto é mesmo um processo muito próprio e singular.

Deve e tem que ser respeitado na íntegra, sem críticas, sem análises, sem falsos moralismos.

Não te vou mentir! Talvez consigas erguer-te e sorrir novamente de todas as lembranças que tens com quem perdeste, ou, pelo contrário, nunca consigas voltar a levantar-te de forma a levantares os olhos do chão e seguires o teu caminho da melhor forma que encontrares.

Dá-te tempo e uma oportunidade para chorares todas as tristezas, todas as dores, todas as memórias e todos os vínculos que tinhas com a pessoa que amavas. Não descures de nenhuma delas, porque só assim conseguirás alcançar a paz de espírito e passarás a olhar para tudo o que viveste com a pessoa como uma dádiva de vida e uma gratidão imensa por teres sido escolhida pela mesma para estar presente na sua vida.

O amor não precisa ser vivido com dor, raiva, e ressentimento. Este maravilhoso sentimento só poderá ser pleno, se transformarmos toda a mágoa que ficou com a partida desse ser maravilhoso que nos fazia sorrir, amar, e querer viver, em memórias suaves, doces e inesquecíveis.

Permitam-me dizer-vos ainda que, todas as formas de luto que aqui referencio, tem sido experimentadas por mim no decorrer destes 5 meses 12 dias, tirando a visita ao cemitério. Não era o desejo do meu filho. O seu desejo era o de ficar connosco mesmo após a sua morte. De vir connosco para casa.

A meu ver e perante a minha experiência pessoal, encaro como uma forma mais suave dentro do que é possível ser suave em todo este complexo fenómeno chamado de morte. Acreditem que poupo imensa energia só com o simples facto de o ter bem perto de mim. Apesar de ser somente matéria, posso olhar todos os dias, todos os segundos para a sua urna e senti-lo bem perto de mim.

O “ritual fúnebre” que é realizado por imensos enlutados, aviva o momento da despedida, aviva todos aqueles momentos horríveis de termos que vir embora deixando para trás o corpo da pessoa a quem amamos tanto. Todas as vezes que se vai ao cemitério, gasta-se energia fundamental para o nosso equilíbrio mental, e quando de lá vimos, esgotamo-la por completo. Mas esta é somente a minha forma de ver e de sentir todo o processo de luto. Infelizmente não é a primeira vez que eu o vivo.

Deste modo só desejo que encontrem o vosso equilíbrio dentro do tempo necessário que precisarem para o viver e gerir. Desejo que tenham a força necessária para voltarem a sorrir.

Com carinho.

A mãe do meu filho tem asas

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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