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Ainda telefono para ouvir a tua voz!

Ainda telefono para ouvir a tua voz!

É curioso, como mesmo numa mensagem de voz, tu transmites alegria e boa disposição, quando na realidade não era isso que sentias.

Telefono-te e vou deixando-te mensagens de modo a não permitir que a tua gravação desactive. Continuamos a carregar o teu telemóvel mesmo que não o uses.

Tudo pequenas acções que os pais em luto mantém como negação.

Sim! Negação!

Apesar de dizermos com a boca que o nosso filho morreu, o nosso coração não permite processar essa informação. Falta-nos o ar, entendem?

Hoje compreendo a aflição daquelas mães que chegavam ao meu balcão na Vodafone ou na NOS e me pediam por tudo para que não fossem perdidos dados nenhuns perante a reparação daqueles telemóveis.

Somente porque o mesmo havia sido de seu filho ou filha e nele continham um tesouro.

Doía-me o coração ter que lhes dizer que não era possível, devido às actualizações de software a que as empresas são obrigadas a efectuar para protecção dos dados dos clientes.

Muitos choravam ao balcão, outros recusavam a sua reparação.

É complicado demais tudo isto e ninguém tem preparação alguma para passar por uma privação desta magnitude.

Dou por mim muitas vezes a pensar no quanto as pessoas que vivem todos os dias mergulhados na dor e desanimo total pela vida e todos os que a rodeiam sofrem.

Quando analiso friamente o que estas mães e pais vivem por ver os seus filhos doentes com a depressão, penso que a dor destes pais é igualmente grande. Atrevo-me a dizer que a única diferença é somente a de terem os seus filhos vivos.

Mas, estarão eles vivos de verdade?

Fica a questão.

Por diversas vezes, mães me procuram em busca de apoio, uma frase que lhes dê alguma esperança de que os seus filhos irão ficar bem.

Fico impotente!

Sinto-me impotente perante o sofrimento destes pais e destes jovens, homens e mulheres.

Não há forma correcta de gerir todo este processo de morte estando vivos.

São pessoas que vivem em desespero de quererem a todo o custo ajudar os seus filhos que vivem amargurados pela dor que lhes consome a alma. E são jovens, homens e mulheres que procuram somente acabar com aquela dor.

Todo o esforço de ambas as partes, não chega!

Nada chega!

Clínicas, tratamentos, vigia, amor e dedicação. Raros, são os casos de sucesso, em que a pessoa sobrevive à amargura de viver consumido pela angústia e dor.

A dor de alma que sentem e não conseguem identificar a sua origem consome-lhes toda a vitalidade e esperança.

Sentem-se mal!

Tudo o que os rodeia está mal.

O piro é que todas as pessoas que sofrem de depressão, sabem o quanto magoam as suas famílias e amigos, e é por isso que mentem tanto. Muitos passam anos a fingir serem felizes até que surge o momento decisivo. Outros esperam que o dia aconteça quando já não tiverem ninguém que dependa deles. Outros tentam reerguer-se a pouco e pouco, envoltos de uma tristeza porque se sentem diminuídos por magoarem tanto as suas famílias.

A triste realidade é que mentem para não fazer sofrer.

Metem para não serem criticados.

Mentem para poderem ser tratados como filhos normais. Sem cuidados redobrados, nem controles de acções.

Mas não chega!

Nada chega!

Até hoje, a história que mais me marcou foi a partilha de uma mãe, em que me fala que a sua filha se formou em Psicologia como Dra. e a mesma foi preparando a sua família para o dia em que ela tomaria a decisão. Esta mãe hoje agradece o facto da sua filha a ter vindo a preparar ao longo da vida para a sua própria morte.

Meu Deus! Esta mãe é de uma coragem tamanha! E eu fico imensamente grata pela sua partilha.

A verdade é que todos nós temos histórias diferentes de vida, mas a história acaba toda por ter o mesmo fim,

A morte!

Um enorme beijo a todos vós.

Com imenso respeito pela vossa dor,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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