Amor, Depressão, Pais, Pedro, Tristeza

Quando o teu filho descobre que tem o poder de se aniquilar!

Quando o meu filho descobre que tem o poder de se aniquilar o meu dia perde as cores todas do arco-íris e o céu vira cinza.  O sol perde o seu brilho. A lua fica embaciada com toda a neblina que se apodera dela. Tudo se altera ao meu redor.

Todos os dias mais e mais testemunhos chegam até mim como forma de receberem compreensão, uma compreensão que a sociedade lhes nega. Aos olhos da sociedade somos famílias disfuncionais e com filhos que se aniquilaram devido a problemas mentais.

É aqui que surge o alerta! Não às famílias que já sofrem com a realidade da depressão. Estes já estão cientes do problema. Mas e vocês?  Quantos de vós olham com olhos de ver os filhos que tem em casa? Quantos de vós se interessam pelo dia-a-dia dos mesmos? Como correu a escola, o passeio, como está a relação com a namorada ou namorado, amigos? Se calhar, por verem os seus filhos como “ditos crianças normais” nem se dão conta da tristeza que os envolve. Não quero com este assunto referir que sois negligentes como pais, nada disso, mas facto é que vivemos todos numa montanha russa, sempre a lutar de um lado para o outro e com altos e baixos, que pode mesmo passar ao lado certos pormenores que não consideramos relevantes e no entanto para os nossos filhos tem um peso enorme.

Querem saber a minha verdade? Eu digo-vos! Todos os dias, ainda mesmo no dia de hoje e perante a morte do meu filho Pedro eu coloco todas essas questões aos meus filhos. Isto tendo em conta a idade dos mesmos. É Óbvio que não vou questionar ao meu Francisco como está a sua relação com a namorada, afinal ele só tem 8 anos e isso ainda não se aplica a ele como factor do seu dia-a-dia. Contudo falamos de meninas e de quais ele gosta mais. Com o meu filho Pedro nunca foi diferente, embora a resposta dele fosse quase sempre a mesma. “Está tudo bem, correu bem, aborreci-me com, ou estou triste por“. Mesmo assim, ele escondia o que realmente sentia. Quanto ao meu David, este até ao dia da morte do seu mano, era muito mais reservado. Entendia que a sua vida pessoal dizia-lhe unicamente a ele. Facto que mudou na semana anterior à morte do irmão. Não falarei dele porque é a sua vida privada. Mas o David mudou. E com a morte do Pedro mudou a forma de estar perante a dor, e permita-vos que diga, para positivo, graças a Deus e à conversa que tivemos.

As famílias sofrem todos os dias, pelo mundo fora e acreditem que são mais do que os dados estatísticos apresentam.

E perguntam vocês porquê?

Vocês sabem porquê! Mas eu digo-vos! Por causa da MALDITA VERGONHA!

Todos querem passar a imagem de famílias perfeitas, que se esquecem de que não é a imagem que passamos cá para fora que é o importante. O mais importante é mesmo saber viver bem a vida. E não falo, com passeios, viagens, grandes carros, casamentos com dinheiro, grandes casas, roupas, malas, sapatos, ou grandes empregos e estatuto social. Falo da felicidade de se sentir vivo. E principalmente de todos da sua família viverem de boa saúde e em harmonia com todos. Falar da depressão, ou de que procuram a ajuda de um profissional, ou que tomam medicação é uma vergonha para a maioria das famílias.

Está errado!

Quantas de vós transparece aquilo que não são? Vai-se a ver, são os primeiros apontar o dedo e no entanto também são ajudados e tem na família urgências que precisam de ser tratados e por vergonha fecham-se no vosso casulo. Mandem os outros á m#rda! Assumam-se como seres humanos e não como protótipos de seres indestrutíveis.

 

Por causa de todos os que desvalorizam os sinais de um ataque de ansiedade, de um ataque de pânico, de sintomas de depressão, a sociedade vira as costas as estas famílias quando lhes nega indirectamente a possibilidade de se dirigirem a elas como pessoas normais, que sofrem de distúrbios do foro psicológico. A sociedade ridicularizam-nos chamando-os de “maluquinhos” porque precisam de orientação médica, de terapia, de acompanhamento, de medicação.

Estamos em pleno século XXI e parece que vivemos num conceito de loucura do século XIX. Querem viver tanto na era da evolução que se esquecem do que é mais importante. A Saúde Mental!

A Depressão mata mais que o cancro! Mata mais que a Sida!

Vocês sabiam? Mas ninguém fala nela abertamente. Fazem dela, um tabu diário.

Sabiam que existem inúmeros jovens e famílias que desconhecem que seus filhos se encontram perturbados, colocando em causa o porque de viver, de existir?

O Porquê! O maldito porquê!

(a minha vida anterior à morte do meu filho)

Há mais de dois anos que sou Mãe a tempo inteiro, levo os meus filhos à escola quando os horários assim o permite, vou busca-los à escola aos três quando os horários coincidem. Caso contrário, vou buscar unicamente o Francisco ou o Pedro e o Francisco, já o David por ter o horário mais preenchido sai sempre às 18:30 e apanha o autocarro.

Almoçamos todas as quartas feiras com os meus dois mais velhos, vejo um filme, falamos, rimos de vídeos que me mostram, dou o meu parecer sobre as musicas que me colocam para ouvir, passeamos o cão, partilhamos tarefas de casa juntos, como lavar uma loiça ou despejar um lixo, estender uma roupa ou até colocar uma roupa a lavar.

Levo-os à escola sempre que me pedem, ou porque o autocarro não passa ou chega atrasado.

Acompanho as reuniões escolares, chego a ir aos treinos de judo e cheguei a ir buscar o meu filho mais velho ou coloca-lo nos treinos dos jogos.

Partilhei sempre imenso do que gosto com eles e participava com eles nas coisas que eles gostavam. Se ia a todos os jogos? Não! Sinceramente irrita-me. Mas não é por ver o meu filho a jogar, isso aflige-me por vê-lo a ficar magoado na maioria das vezes e sofro com nervos por ver a bola a chegar perto dele num remate. Não, não ia mesmo a todas, sinto-me mal no meio de tanta gente quadrilheira a falar mal deste e daquele como se a vida deles não lhes bastasse. É como ir a uma missa em que todos vestem uma capa de fiéis e depois são os primeiros a atirar a primeira pedra ao próximo. E desculpem a comparação.

Agora chegamos à parte mais dolorosa. (O Presente)

Sou a mãe do Pedro com 18 anos e 364 dias, mãe do David com 17 anos e do Francisco Daniel com 8 anos. Uma mãe que todos os dias até mesmo nos dias de hoje, ainda questiona sempre como correu a escola e o que aprenderam. Sou uma mãe muito carinhosa, sempre a beijar, abraçar, a fazer-lhes cócegas e interessada no que fazem, a menos que sejam os vídeos sem lógica nenhuma, mas que agarram os jovens a um ecrã tão pequeno como é o de um telemóvel.

Estou a repetir-me? Não se preocupem é de propósito! O meu objectivo, é que, interiorizem cada palavra e vejam reflectidas nelas o vosso dia-a-dia. Que analisem o que aplicam e o que pode estar a faltar. Se faz disso maus pais? Não de maneira nenhuma! Faz de vocês seres humanos verdadeiros e não figuras de contos de fadas.

Depois de tanto que escrevi, o meu objectivo é mesmo o de vos transmitir, que apesar de ter tempo para os meus filhos devido a um acidente de viação que me deixou de baixa por dois anos, eu não consegui salvar um dos meus maiores tesouros que alguém pode ter na vida.

O meu filho Pedro.

Reparem! Dois anos, todos os dias a viver para eles, atenta a todos os momentos de indisposição, de revolta, tristeza, melancolia, euforia, alegria, preocupação, saúde, hobbies, relações pessoais em muitas coisas que não é diferente com os vossos filhos.

E apesar de toda uma vida a viver em detrimento deles, mesmo nos momentos de altos e baixos na minha própria vida, uma coisa que sempre lhes transmiti foi a de desistir da vida, nunca! Procurar sim sermos felizes e melhorarmos enquanto seres, seguindo os nossos ideais, mas sempre com responsabilidade. Não, não estou com falsos moralismos. Eu erro, eu também tomo más decisões, eu também sou imperfeita. Sou humana tal como vós.

Resta a conclusão: O meu Pedro, não aceitou ajuda de ninguém. Ele desistiu dele e de nós.

Agora pensem um pouco comigo.

Então e as famílias que não dispõem do mesmo tempo que eu? Do mesmo horário de trabalho como o do meu marido que sai às 17?

Não se questionam?

O que eu quero dizer com isto, é que a depressão e baixa auto estima nos nossos jovens e mesmo nos adultos é cada vez mais frequente face às solicitações que temos todos os dias. Não se questionam, na parte em que não acompanham os vossos filhos em tudo, porque os vossos horários laborais não permitem? Quero mesmo acreditar que sim que o fazem.

Quantos de vós tendes os vossos filhos sozinhos em casa com idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos? Vocês sabem o que eles fazem? A musica que ouvem? Os filmes que vêem? Com quem falam no facebook, Instagram, twitter, no telemóvel? Sabem as suas palavras-chave? Sabem se é na escola que eles estão mesmo?

Atenção! Eu sei as palavras-chave, foi sempre um pedido ou se lhe quiserem chamar de condição para eles poderem ter acesso ao que gostavam. Eles, tem acesso à minha. Se me acontecer algo, poderem mexer nas minhas coisas. Quando o meu filho faltava às aulas! A Directora de turma que ele tinha, avisava-me no momento por telemóvel. E o Pedro pedia desculpa e tentava corrigir o erro, regressando à escola.

Agradeço até hoje por essa abertura da professora comigo. Obrigada Professora Ana Paula.

Vocês sabem se os vossos filhos fumam às escondidas? Se bebem? Se, se mutilam?

Deixem-me que vos partilhe uns truques, que tal como o meu filho fazia, os vossos também o fazem. Como eu sei? Pelas mensagens trocadas entre eles.

– Usam luvas de látex para evitarem ficar com o cheiro do tabaco nas mãos e dão sempre a desculpa que estiveram ao pé de amigas ou amigos que fumavam no momento.

– Escondem o tabaco por trás dos livros nas estantes, na mochila da escola, debaixo do colchão da cama, ou dentro de umas botas ou ténis.

– Quando estes esconderijos atrás mencionados são descobertos, passam a deixar na caixa da luz do prédio, na caixa da água, na garagem, na caixa do correio, no cacifo da escola, ou pedem a uma amiga ou amigo para o guardarem.

E como devem entender, não fazem só isto com o tabaco, fazem também com a bebida.

“Há! o meu filho ainda não tem 18 anos e por isso ninguém lhe vende bebida.” (pensamos nós)

Tem mesmo a certeza disto que você pensa? Você consegue ser assim tão ingénuo?

Os jovens conseguem tudo! Sabem aquele amigo de 18 anos? Pois é! É esse que o vai safar!

Não se enganem!

Quantos de vocês costuma ver os vossos filhos nus? É importante sabiam? Eles escondem os golpes nos sítios mais estranhos que vos pode passar pela cabeça. E quem já iniciou o caminho da mutilação não está muito longe da aniquilação. Nós cá em casa vemos muitas vezes os nossos filhos nus! O Pedro não era excepção e graças a Deus ele não sofreu disso. Mas tenho conhecimento que existem muitos dos seus amigos que o fazem.

Não me leiam com indignação, mas sim com atenção, o meu discurso é mesmo para vos chocar! Para vos alertar!

Os nossos filhos mentem-nos sim!

A toda a hora sim! E não nos vêem como seus salvadores mas sim como inquisidores!

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

 

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Foi muito duro ler este post Rute. Um grande beijo de uma mãe de um rapaz de quase 13 anos

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