Amor, Luto, Morte, Pais, Pedro, Saudade, Tristeza

A tradição de 18 anos não foi cumprida.

23 de Maio de 2000!

O principio da maior felicidade na vida de uma mulher que deseja tanto ser mãe.

Eu!

Por esta altura, já no final da tarde ía eu e o meu marido rumo ao hospital Garcia de Orta em Almada, só para precaução.

Eu estava a ir muitas vezes ao WC e achámos que poderia ser necessário ser observada.

Lembro-me perfeitamente do meu marido me alertar de que eu ía ficar internada.

Já eu dizia que não e resmungava, dizendo que não iria ficar internada antes do tempo previsto para o nascimento e que iríamos os dois para casa.

Pois é!

Acabou por ser o meu marido a ter razão.

Já não me deixaram sair.

Encontrava-me a perder liquido amniótico e o Pedro corria o risco de ficar sem oxigénio.

Passaram a monetizar-me e ao meu bébé.

Despedi-me do meu marido porque disseram-nos que o bébé só iria nascer no dia 24 ou 25 de Maio.

Que hoje, dia 23 de Maio me iriam deixar descansar e amanhã dia 24 iriam provocar o parto.

Assim foi.

A indução do parto foi iniciada na parte da tarde e foi todo ele muito sereno.

Eu estava mentalmente preparada para um parto com a dor necessária e sem anestesia nenhuma.

Queria sentir o que as nossas avós sentiam.

Na minha mente só pairava uma ideia.

“Se antigamente, as mulheres pariam os seus filhos no campo enquanto andavam na monda, então eu não via razão nenhuma para ser diferente comigo.”

Não aceitei a epidural em nenhuma das vezes em que me foi apresentada.

A dilatação ía-se fazendo gradualmente e o meu marido sempre do meu lado monitorizando o CTG até ao ponto de eu o mandar embora.

Uma coisa era a dor surgir com a contracção sem prévio aviso e outra completamente angustiante, era onde ele me dizia que me preparasse porque estava a chegar uma bem forte contracção.

Nas duas ou três primeiras vezes ainda achei confortável, mas depois…

Bem!

Deixei de achar piada e ralhei com ele.

Deste modo o meu marido saiu para ir descansar um pouco e eu fiquei naquele quarto sozinha mais o meu tão esperado filho e adormeci.

A dilatação fez-se completamente e pelas 07 horas do dia 25 de Maio de 2000 eu acordei com o meu marido do meu lado e eu a dizer-lhe que tinha vontade de ir ao WC.

Podem imaginar o Francisco aflito a chamar as enfermeiras parteiras e a dizer que estava na hora.

Que o bébé estava para nascer.

Ele estava mais nervoso do que eu.

Estiveram comigo as enfermeiras parteiras D. Maria das Dores e a D. Fátima.

Nunca mais me esqueci do nome delas.

O parto desenrolou-se e às 07:31 do dia 25 de Maio de 2000 o nosso tão desejado filho nascia.

Um dos dias mais felizes da minha vida. Podem imaginar as lágrimas de felicidade de o termos bem ali rodeado de tanto amor.

Hoje?

Hoje tudo mudou e a história alterou todo o percurso da minha vida.

Há um ano atrás, precisamente neste dia a 23 de Maio de 2019 o meu filho passou todo o dia na companhia do meu mano de alma e coração Lázaro Prego e viveria momentos de muita alegria porque em Alcácer do Sal estávamos todos abraçados em torno de um grande projecto do Lázaro na nossa terra.

Videos desse dia comprovam a sua boa disposição e entrega num projecto que me pediu para entrar comigo e com o mano David.

Ele estava tão empolgado e nós completamente desligados e sem hipótese nenhuma de imaginar o que viria a seguir em menos de 24 horas.

Agora mesmo…

Dei comigo a tentar-me lembrar do beijo pelas 07:31 do dia 25 de Maio de 2019 e caí num choro silencioso, onde me correm as lágrimas enquanto vos escrevo.

A tradição de 18 anos não foi cumprida. Nem o dia passei na sua companhia.

O seu corpo aguardava o nosso reconhecimento na morgue.

A tradição era algo que ele tanto gostava e fazia questão de o partilhar comigo.

«”Mãe, é a melhor altura do dia do meu aniversário…Quando me vêm dar o beijo de parabéns às 07:31, a hora em que nasci.”

“Gosto tanto.”»

Meu Deus Pedro!

Tão triste constatar que nunca mais o poderei fazer.

Nunca mais…

Tenho tantas saudades tuas meu querido filho.

Amar-te-ei eternamente Pedrocas.

Com uma profunda mágoa,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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4 Comments

  1. Bernadete Duarte says:

    Não há o que dizer, apenas consigo pensar em sua dor. Chorar contigo. Um ano já se passou, e parece que não…Desejo profundamente que Deus te envie o consolo que precisas, e enxugue cada lágrima. 💐❤️

  2. Maria José Martins says:

    Recomendo .

    Sinais
    Uma História Comovente de Uma Vida após a Vida
    Joel Rothschild
    ” nunca estamos longe daqueles que amamos”.

    1. Rute Reis Figuinha says:

      Muito Obrigada pela sugestão do livro 🙂 irei procurar. Beijinho

  3. Patricia says:

    Deus te abençoe e console diariamente, teu anjo nunca te abandonará e ele sabe que o seu amor por ele é eterno.

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