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A nossa relação com a morte.

Tenho escrito e continuarei a fazê-lo enquanto a realidade existir e todos nós continuarmos a fazer do assunto “Morte” um tabu existencial.

Defendo cada vez mais ser necessário falar sobre a morte, da mesma forma como falamos da vida. Afinal, a morte é o que todos nós temos de mais certo na vida.

“Não importa se somos ricos ou se somos pobres, a realidade é que somos todos na verdade, sem-abrigo a aguardar o dia em regressaremos a casa.”

Sei que pode parecer mórbido até o facto de vos apresentar este discurso, mas a realidade é que se não falarmos e não permitirmos que as crianças nos partilhem os seus sentimentos acerca da morte, irão permanecer confusos e muitos até poderão sofrer muito mais com tal realidade, que fica por vezes sendo parte de uma ilusão sem explicação.

Mas eu explico!

Quando perdemos alguém tão importante quanto um filho, um pai, uma mãe, um irmão ou simplesmente uma pessoa que fazia parte das nossas vidas, é sim, uma das experiências mais dolorosas e profundas que podemos viver emocionalmente.

Vive-se a vida e vive-se intensamente a morte.

E como já não é nenhuma novidade para vós, cada um vive de forma única essa perda, devido à relação particular que temos com essa pessoa. E é aqui que se torna um tabu!

Porque é muitas das vezes tão difícil para o adulto passar por todo o processo, que o seu único objectivo, é o de “abafar” todo o sentimento àquele pequeno ser, que podem ser seus filhos, netos ou sobrinhos. Mas, o que não podemos esquecer nunca, é que para a criança a morte é igualmente um processo longo, onde irão surgir muitas dúvidas e muitos sentimentos de tristeza, revolta e incompreensão.

Na ideia e na verdade de todas ou quase todas as crianças de maneira geral, a morte só “apanha” as pessoas muito velhinhas depois de já terem vivido muito.

Por exemplo, no meu caso, ou melhor dizendo, no caso da nossa família, a morte tomou um peso muito grande, porque ao contrário do que o Francisco Daniel esperava, que era de ver partir os seus avôs já velhinhos, e bem mais tarde os seus pais, o que significaria que ele também já seria um homem, surge a morte do seu irmão Pedro.

Um irmão jovem, sem casa própria, sem carro, sem profissão, sem a sua família construída por ele.

O nosso Francisco passou a viver com medo!

Vive com medo de perder o seu mano David, com medo de perder a sua mãe e com medo de perder o seu pai.

Começou com as perguntas difíceis e com dificuldades de gerir as suas emoções.

No outro dia, por exemplo, ficou a chorar imenso, aflito com o simples facto de o seu irmão David precisar de ir à urgência do hospital. O mesmo onde o seu mano Pedro morreu.

Quando cheguei do hospital com o David, o Francisco agarrou-me pelo braço e pedindo-me para me sentar ao seu lado perguntou tudo o que o mano foi fazer. E partilhou a sua angústia e o seu pensamento de medo em perder também aquele irmão.

As crianças que vivem de perto com a morte, passam a viver em sobressalto.

A morte não faz sentido no seu processo normal. Na verdade o morrer para elas é apenas temporário, como se de um jogo de vídeo se tratasse ou de bonecos animados.

A criança também tem que se organizar, face à ausência do seu irmão ou familiar que perde. Porque obrigatoriamente deixa de fazer parte da sua vida, diariamente. Então é aqui que nos surge o alerta.

Deixar de falar sobre a ausência desta pessoa é por vezes mais cruel, do que falarmos todos os dias nela. Contudo é igualmente necessário entender e perceber como é a forma de caminhar desta criança que se relaciona connosco. Porque ela não vai reagir sempre da mesma forma e até nos vai surpreender muitas das vezes.

Todos nós vamos ter que nos reorganizar fisicamente e emocionalmente sem a pessoa que morreu.

No caso do meu Francisco Daniel, ele fala muitas vezes do irmão e das saudades que sente dele e do que o Pedro lhe ensinou. Pergunta igualmente muitas vezes se eu estou triste por causa de não ter mais o Pedro comigo. Mas mesmo apesar de tudo isto, de me ver chorar, de me abraçar, enxugar as minhas lágrimas, de falar comigo sobre o irmão, de ver fotos comigo onde está o Pedro, ou vídeos, ele virou-se para mim e para o David dizendo, segundo a sua análise, que o pai e a mãe não falavam muito do Pedro, era como se não tivéssemos saudades do mano.

Deixou-me muito triste! Acreditem!

Afinal ele com 8 anos não tem noção da realidade acerca da dor dos pais e do irmão mais velho. Aqui indirectamente e directamente surge o tabu acerca da morte.

Sigam o meu pensamento.

Se por um lado os psicólogos nos dizem para termos cuidado com a demonstração da nossa tristeza, para não carregarmos demasiado a criança com a nossa perda.

Pelo outro, o Francisco Daniel apesar de ter sempre da nossa parte uma resposta aos seus choros e mágoas com a saudade que sente do Pedro, não encara a nossa ausência visível perante ele, de tristeza e choro acentuados e recorrentes, como se sentíssemos mesmo a falta do seu irmão.

Conseguem ver a ambiguidade da penosa realidade?

Choramos com ele, e ele no fundo pensa que é só por empatia, por sermos seus pais e seu irmão e não porque queríamos do mesmo modo o Pedro vivo.

Quando o Francisco me disse aquela frase, fiquei chocada! O David incrédulo e apressou-se a corrigir logo o irmão, dizendo-lhe que ele nem tinha noção do que estava a dizer, porque a verdade é que todos os dias ele via a tristeza dos pais e por vezes via-os a chorar e a falarem do Pedro em vida, contudo por sermos pais, nós disfarçava-mos, para ele não ficar ainda mais triste. E o David ralha com o irmão, para não voltar a repetir uma barbaridade daquelas.

Aqui eu intervenho, explicando ao Francisco Daniel, onde ele estaria enganado, porque por ser pequeno não tinha noção do sacrifício emocional que fazemos todos os dias para lhe providenciar um ambiente, o mais descontraído e normal possível. E relembrei-o de todas as vezes que choro com ele enquanto lhe enxugo as lágrimas. Relembrei-o de todas as vezes que falamos juntos sobre o Pedro e acerca das coisas que ambos viveram e partilharam. E é neste momento que o Francisco baixa a cabeça e me pede desculpa porque se deu conta que me havia magoado sem ter intenção.

A dura realidade é que todos nós cá em casa sofremos com a ausência do Pedro e atrevo-me a dizer que as pessoas que o amavam também sentem a sua falta. Mas nunca o iremos deixar de amar, nem o esqueceremos. O que ele foi e o que mudou nas nossas vidas. E é por isso que estamos e vivemos atentos aos sentimentos do Francisco e do David. Porque a dor deve ser vivida livremente.

Devemos compreender as suas revoltas e os seus medos e ajudá-los na nova adaptação à vida sem o irmão.

Deixar de falar ou de ver fotografias ou vídeos do Pedro só irá tornar mais penoso, todo o processo para todos, por isso sim, vemos tudo isso, e quem não consegue estar mais presente, ausenta-se respeitando o momento dos outros. Eu por exemplo ausento-me muitas vezes porque não consigo evitar de chorar.

Temos que ter tempo e dar tempo a eles para aceitarem a nova realidade.

O nosso filho, o vosso irmão morreu e ele não vai voltar.

Existem momentos em que o Francisco não quer falar, e outros em que não se cala com questões. O que é perfeitamente normal porque as crianças lidam directamente com emoções.

O Francisco por exemplo tem momentos de euforia e outros de dor e tristeza. Momentos tranquilos e outros de revolta. Momentos em que só está bem junto de nós e outros em que pede para ficar sozinho. Porém, houve algo que mudou nele e que envolvem os afectos. Ele não consegue mais ser tocado ou abraçado por pessoas que não conhece, rejeita completamente.

Todos estes momentos são por nós respeitados integralmente.

Chorar para todos cá em casa é significado de amor e o amor transformado em saudade.

A morte do Pedro já é tão penosa que os detalhes sobre a sua morte foram contornados como forma de protecção para o nosso filho Francisco. Não tem compreensão para aceitar a realidade da morte do Pedro. Já ele ter tido a coragem de beijar, ver, estar e afagar o cabelo do irmão, foi de uma valentia e tanto para um menino de 8 anos.

Faço-lhe uma vénia! Acreditem!

Por isso sim! Defendo que devemos falar abertamente sobre a morte de alguém tão importante em nossas vidas e na vida das crianças, sem ter que falar de pormenores sobre a maneira como se morreu. Porque todos sofrem ao seu jeito e encontram “tábuas de salvação” da melhor maneira que conseguem para superar a ausência de tudo o que diz respeito aquele ser.

Sendo que eu não acredito na palavra superar! Pelo menos não para já!

A criança que lida com a morte muda para sempre!

Ainda no outro dia o meu Francisco me questionava quem era a menina da capa do livro Querida Madalena e porque a Madalena se encontrava na capa de um livro. Perguntava-me se a menina tinha morrido.

Ele não sabia que as crianças também morriam.

Em seguida respondia-me que ela era muito pequenina, como é que podia ser possível?

E não esperei muito por uma nova questão acerca de como e porquê ela tinha partido. Ao que foi mais forte do que ele e começou a chorar, sem conhecer a Madalena, mas por lhe custar tanto saber que uma menina quase da sua idade teria ficado doente e morrido. Pensou nos seus pais e disse que era muito triste. Deu-me um beijo e foi para o seu quarto brincar.

Por isso volto a repetir.

A criança que lida com a morte muda para sempre! Todos mudamos!

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

 

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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