Luto Saudade Sociedade

A minha ida ao Hospital.

Esta terça feira dia 06 de Abril, não me senti bem. Enquanto trabalhava, a minha cabeça latejava e o mau estar estaria a chegar. Oscilações de tensão, tonturas, dores de cabeça, vómitos e parecia eu que me encontrava em alto mar.

Felizmente tenho colegas espetaculares, que não me deixaram mais ficar daquele jeito e chamaram uma ambulância para eu ir para o hospital.

Não sei se foi o nervosismo de me ver deparada com a hipótese de ir numa ambulância, se com o facto de ter que voltar ao mesmo espaço físico onde o meu filho perderia a sua vida.

Toda eu tremia! Chegaram mesmo a pensar que eu estaria a ter um ataque de ansiedade. Coisa que somente tive uma vez durante o lançamento do livro da minha querida amiga Sílvia.

A ambulância chegou e com ela dois bombeiros.

O Francisco e o Paulo. Longe estava eu de imaginar que o pior estaria por vir.

Quando me deparo com o bombeiro Paulo, a minha memória não me falhou e lembrei-me do momento da decisão do meu filho. Vocês não sabem, mas foi com este bombeiro que eu falei ao telefone, enquanto recebia as orientações se poderia ir para o local do acidente ou se deveria esperar já no hospital para onde o Pedro iria.

Não me esqueço das suas palavras, onde me dizia que o meu filho se encontrava estável, e para não ficar aflita, porque tudo iria ficar bem. Afinal o Pedro encontrava-se vivo, apesar da queda.

Não consegui, mais parar. Rompi num choro, enervei-me bastante e a minha memória não parava de me enfrentar. Situações que eu pensava já ter absorvido para aquele baú que guardamos a 7 chaves para nunca mais abrir.

Quando me conseguiram acalmar e depois de todos os procedimentos prestados, lá seguimos para o hospital.

Sirene a tocar, a turbulência das rodas no asfalto, faziam-me confusão. Mas resolvi elevar o meu pensamento dali para fora e abstrair-me de tudo ao meu redor. Fechei os olhos, para nada sentir, nada ver.

Quando cheguei ao hospital e depois de entregue à triagem, os bombeiros seguiram a sua missão.

Com uma frase de “As tuas melhoras Rute”, lá seguiram para outra ocorrência.

Não vos vou relatar como foram aquelas 7 horas sozinha na urgência, porque decerto saberão que não foram fáceis. Lamurias, dores, queixas, gritos, desassossego de todos no geral.

Cheguei a pensar que se teriam esquecido que eu estaria ali.

Pensei por diversas vezes, abandonar o local.

Não me sentia lá bem.

Até ao momento que chegou até mim uma enfermeira, a perguntar se eu estaria tranquila e se precisava de alguma coisa.

Lembro-me de lhe dizer, que pensei que nem sabiam que me encontrava ali.

A enfermeira muito simpática, respondeu de imediato:

-Sabemos sim D. Rute. Não está esquecida. Sorriu e foi ter com outro doente.

2 horas e 20 minutos depois, o Dr. chega ao pé de mim. Fez-me as questões que teria de fazer e informou-me que ira submeter-me a um TAC de modo a despistar qualquer origem canceriana face aos meus sintomas.

Mais 4 horas de longa espera, e agora ainda mais agravado com o pensamento de um possível tumor.

Usava o meu pensamento positivo e realmente funcionou.

Viria a constar no relatório que se tratava de uma encefalia forte. Graças a Deus.

Quando a enfermeira, volta a vir ter comigo, desta vez para me administrar a medicação e colocar o cateter, eu perguntei se lhe poderia colocar uma questão, à qual respondeu afirmativamente.

Questionei se ainda se encontrava a trabalhar a Dra. Cláudia naquela urgência do hospital.

A enfermeira, fez uma pausa, de modo a tentar perceber o porquê da minha questão e  eu disse-lhe a verdade.

– “Gostaria de poder agradecer e um dia dar um abraço a essa senhora. Não sei se se lembra de um jovem…”

E a enfermeira não me deixou terminar, ao que me respondeu de imediato.

– “Sei quem é a Rute”. “Sei quem é o seu filho”. E perguntou – “Posso eu agora dizer-lhe uma coisa?”

Respondi com um sim.

– Fui uma das enfermeiras que acompanhou o seu filho desde o primeiro minuto neste hospital e até ao ultimo da sua vida.

Foi instantâneo, não consegui evitar, e comecei a chorar.

Fiz uma pausa, e enchi-me de coragem para colocar mais uma questão.

– O meu filho falou alguma coisa? Ele chegou a falar com vocês?

A resposta foi mais uma vez, positiva.

– D. Rute, o seu filho disse – “O que fiz eu, com a minha vida?” e durante os cuidados, ele agarrou minha mão e disse-me – “Eu não a conheço, mas obrigado.” Neste momento a enfermeira ficou nervosa, e mencionou-me ter sido a experiencia mais difícil da vida dela até ao presente. Na altura seria somente ainda aluna em estágio.

Em seguida questionou-me de que ano era o meu filho, e eu respondi que era de 2000.

Vi que se comoveu e pediu-me desculpa, onde eu a corrigi dizendo que lhe agradecia aquela partilha e quem lhe pedia desculpa era eu.

Bem no final das minhas longas 7 horas, não me podia ir embora sem lhe perguntar o nome. E a enfermeira partilhou-mo.

Sou-lhe grata!

Gratidão por conhecer mais um rosto, de alguém que tudo fez perante o que tinha ao seu alcance para salvar o meu filho.

Gratidão por ter sido delicada com ele, ao ponto de ele lhe agradecer.

Gratidão por não esconder a verdade a uma mãe que carrega no coração uma dor que ninguém quer. Sempre pensei que o meu filho não teria mais falado, visto que passou inanimado por mim na porta daquele hospital.

Gratidão, por ela também ter cuidado tão bem de mim.

No final de tudo, quando recebi a alta, perguntei por onde eu poderia sair.

E ao me ser indicado, voltei a ruir.

Ao sair por aquela porta, deparei-me com o hall onde eu dei a noticia ao meu David. Deparei-me com o corredor que percorri para receber a noticia que mudaria para sempre as nossas vidas. Deparei-me com o corredor onde iria estar com o meu filho Pedro pela ultima vez ainda com o seu corpo quente.

Saí dali, rapidamente. Ao chegar à rua, e verificar tantas ambulâncias, deparei-me com as minhas idas e voltas,  chorando e gritando, pensando e negociando com Deus a vida do meu filho, antes mesmo de saber que iria ficar sem ele.

Não aguentei! Ali não podia ficar! Ali, eu não queria ficar!

Telefonei ao meu marido a indicar-lhe que iria colocar-me a pé, para fora daquele local. Aguardando por ele, já fora do recinto do hospital.

Se eu vos conto isto hoje, é para que vejam e percebam, que a luta é diária. Que podemos ter muitos estados de felicidade, mas que quando certos gatilhos ocorrem, tudo na nossa mente se desmorona. E por vezes fica difícil de saber lidar.

Esta foi mais uma batalha, como tantas outras que tenho que enfrentar no meu dia-a-dia. Umas são mais difíceis do que outras.

Mas a verdade é que são todas estas as dificuldades, que nos surgem, que também nos fazem apreciar o que de bom nos acontece.

Vivo um dia de cada vez, uma hora a seguir à outra. Remeto-me para pensamentos positivos, mesmo que a mente fuja para a realidade dura com a que vivo. E é esse um dos meus segredos. Enfrentar os meus medos! Evita-los, só aumenta a proporção de como olhamos para eles.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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