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A dúvida do amigo do meu filho

A semana passada encontrei um amigo do meu filho Pedro. Confesso que quando o vi, nem sabia como iria reagir e optei por aguardar até chegar a ele.

Ouvi-lo falar, lembrava-me de quase tudo o que o Pedro me partilhava e outras que eu simplesmente ficava a saber.

Sei que o teu acto não lhe foi indiferente e ele vive com isso na sua mente.

Entre tantas memórias que partilhou comigo sobre a sua amizade com o Pedro, partilhou igualmente uma dúvida que trazia no seu coração.

Não sabia se eu estava zangada com ele.

As suas palavras foram:

“Quando tudo aconteceu há 4 meses atrás, tive oportunidade de falar com o Xico, mas com a Rute não foi possível. Eu sei que o Xico não está zangado comigo, mas quanto à Rute, eu não sabia se sequer me queria ver à frente e muito menos falar comigo.”

Não fui capaz de lhe responder.

Na minha mente só pairava a frase “tu estás vivo e o meu filho está morto”. (lamento mas ninguém me pode levar a mal por pensá-lo)

Nada me trará o meu filho de volta. Nada trará o vosso amigo de volta. E se havia algum alerta que vocês podiam ter dado quando ele partilhava convosco os pensamentos de morte. Isso é algo com que vocês terão de viver para sempre. Lamento imenso a sua morte e isso basta-me.

Já entendi que no meio da depressão, não existe o certo ou o errado.

Depende somente do estado da alma, da mente e se ela estiver doente, o errado parece certo e o certo parece errado.

Ninguém está verdadeiramente livre destes sentimentos, por isso, quem sou eu para apontar o dedo a alguém?

O meu filho vivia comigo e foi morrendo aos poucos antes mesmo de estar morto e nunca se deixou realmente conhecer.

Penso que a palavra que me define melhor neste momento é mesmo a palavra “Triste”.

Responde-te à tua dúvida?

Deixo-vos um trecho do livro “Morrer na Ponte” Como aceitar o suicídio de um filho de Carlos Céu e Silva

pág 149,150 [Entre a fase ambivalente pré-suicidária e a cristalização e planificação do momento em que se age para o acto suicida há, na pessoa com ideação suicidária, um trabalho permanente centrando-se todos os seus pensamentos e intenções na forma como lidar e integrar a morte na sua decisão.

Durante este período é tão grande que é disfarçado em estratégias inconscientes. O jovem mostra-se calmo, com ideias, mas em silêncio. a ruptura com o meio e com as pessoas já está feita.

Daí a necessidade de valorizar todos os sinais de alarme que sejam pressentidos. É importante perceber que qualquer jovem só avança para a eliminação de si depois de ter tentado tudo e não ter encontrado respostas ou tácticas para saber como se livrar do sofrimento que sente como extremo.

Este agir individual é quase sempre solitário, silencioso e impartilhável, excepto nos deslizes que ocorrem em momentos de breve distracção ou de acalmia emocional onde a tensão afrouxa permitindo ao jovem a exposição de pequenos desabafos ou pensamentos de tristeza, desalento ou até com alguma carga melancólica.

Após esta fase o jovem prepara o suicídio e ocupa-se mais do cenário do que da execução. Isso fica para o passo seguinte.

Tomada e incorporada mentalmente toda a ambiência suicidária o jovem, quando penetra nesta situação, tem como missão pessoal cumprir o que andou a planificar durante muito tempo. 

E esta é a realidade: o tempo de mais gasto num investimento de auto-destruição, sendo desperdiçada toda a energia psíquica na elaboração de soluções.

Encontrada a resposta final é preciso passar à acção.]

E o Pedro passou à acção.

Com tristeza,

a mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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