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A depressão e o modo como olhamos para ela

Recentemente li num livro a importância de nos darmos conta que estamos doentes com depressão e o quanto é importante respeitar todas as indicações dos profissionais de saúde para que o processo de aniquilar a mesma, possa ter sucesso.

Eu sei, já começamos mal o discurso não é? Mas infelizmente é a realidade, para que possa ter sucesso, devemos de respeitar as indicações dos profissionais.

Infelizmente não falo somente de cor, ou somente porque me dedico a ler, falo por experiência própria. Perdi o meu filho de 18 anos e 364 dias, mesmo na véspera do seu 19º aniversário, porque ele não aceitou ajuda de ninguém, porque ele apesar de ter identificado que se encontraria doente, não quis tratamento, nem conversas com profissionais. Entrou no consultório, falou o que lhe apeteceu, saiu e não voltou mais, desistindo de tudo no dia em que se matou.

Nos últimos 5 meses e 8 dias, sei e vivo-o na primeira pessoa, o facto de ter de ouvir uma profissional a falar comigo, uma vez por mês, sei e sinto-o que muitas das vezes parece que estou a falar sozinha porque as respostas que oiço em nada me tocam, ou sensibilizam para o que eu precisava mesmo de ouvir. Sei e questiono-me algumas vezes, o que vou lá fazer. Sei e verifico, que outras das vezes estou a desejar que chegue o dia da próxima consulta para poder falar com a Doutora. Como vêem, eu mesma não aceito que possa estar com depressão. Estou triste, vivo triste, mas é-me neste momento de minha vida um direito. Que a doutora alguma vez me tenha dito directamente por palavras audíveis que eu estou com Depressão? Não.

Menciona que eu tenho imensos sentimentos para gerir. Sentimentos de revolta, aceitação, tristeza, mágoa, negação, frustração que podem levar à depressão se não forem controlados.

Indica que faço muito bem escrever imenso, ler, e manter a minha cabeça ocupada com coisas que gosto. Que o processo do luto vai levar toda uma vida a conseguir viver com, mas que irei encontrar a minha própria forma de caminhar. Por vezes chega a ser engraçado, porque eu acabo por me rir, e outras vezes questiono-a directamente, porque ela não me dá uma resposta directa. Ao qual já me respondeu, que ela não se encontra lá para me dar respostas, ela encontra-se lá para me ajudar a encontrar as minhas próprias respostas. Confuso não? Estamos tão habituados a serem os profissionais a dizerem o que queremos ou não ouvir, que quando nos damos de caras com um profissional da saúde mental, onde lhe questionamos o que fazer e como fazer, a resposta mais verdadeira que recebemos, é a que nós temos dentro de nós. Ele só está lá para nos ajudar a encontrar o meio de chegarmos até ela.

Contudo e perante todas as indicações que muitas das vezes por sermos quem somos “Humanos”, rejeitamos, e fazemos à nossa maneira. Acabamos ainda mais doentes. Não, não falo somente de mim mas sim da maioria das pessoas que falam comigo acerca do assunto e de muitas realidades que infelizmente desconhecemos.

Por exemplo! Por mais curioso que vos possa parecer, ainda existem pessoas que se encontram mal informadas acerca da depressão, eu mesma antes de ler e estudar acerca desta matéria, também me sentia fechada numa caixa sem saber como reagir perante situações e pessoas com depressão.

Assumimos que é só tristeza e ponto final.

Infelizmente ainda existem muitas pessoas que desvalorizam a depressão como sendo uma doença e rotulam as famílias que precisam de tratamentos dos profissionais da saúde mental.

Por exemplo:

A maioria de vocês deve saber que o Psiquiatra é um médico que estuda a mente e a conduta do ser humano podendo receitar psicofármacos. Já o Psicólogo é um especialista no comportamento humano e aconselha-nos a melhorar. É importante seguir as normas de comportamento que ele propõe de modo a alcançarmos um melhor equilíbrio. Mas é igualmente importante questionar. Eu questiono, e contraponho, por vezes parece que já sei o que a doutora me irá responder com tudo o que tenho lido acerca deste tema.

Como é do nosso conhecimento geral, sabemos hoje que muitas depressões não chegam a ser diagnosticadas e em consequência, sem que essa pessoa receba tratamento. É por isso que digo em todas as vezes que falo sobre a depressão, que se a pessoa reconhecer que está com depressão, deve procurar a ajuda de um especialista para que possa ser ajudado como merece e mesmo que não consiga identificar que tem depressão, mas se permanecer num longo período de tristeza, deve recorrer sim à ajuda, porque infelizmente existem muitas pessoas que têm e pensam não ter e outras que julgam ter e não têm. Só o profissional pode avaliar isso.

Existem pessoas que não aceitam que a depressão seja uma doença, mas sim uma tristeza passageira, ou falta de sorte na vida porque tudo lhe corre mal ultimamente.

Com tudo o que tenho lido atrevo-me a dizer que a depressão é uma doença da tristeza. A pessoa vive num turbilhão de sentimentos negativos que o deixam angustiado, com falta de energia, envolto de desilusão, desencanto por tudo o que o rodeia, triste na maior parte do tempo. A depressão deixa-nos sem energia e sem vontade de fazer nada, mesmo que ocorram injecções de energia, ela passa muito rápido, atrevo-me a dizer que são mesmo fracções de segundos.

A depressão é uma doença do espírito.

A depressão é uma perturbação que nos afecta no que há de mais profundo no ser humano, manifestando-se de diversas maneiras, tendo em conta o nosso próprio estilo de vida, personalidade e forma de encararmos a realidade.

Antigamente na nossa sociedade era “chique” ter-se uma depressão. Só os ricos sofriam de depressão. Os pobres eram apenas loucos. Não, não sou eu quem o diz, são todos os profissionais de saúde que tem vindo a estudar este fenómeno.

As depressões sempre existiram, a diferença é que hoje existe muito mais informação acerca da mesma e mais mecanismos de tratamento e por isso mesmo passou a ser diagnosticada com mais frequência.

Enrique Rojas Professor Catedrático de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Complutense de Madrid e igualmente director do Instituto Espanhol de Investigações Psiquiátricas de Madrid e presidente da Aliança para a Depressão, defende que, (…) Aquele que nunca passou por uma depressão autêntica não sabe realmente o que é a tristeza, um dos sentimentos mais complexos no âmbito da psicologia, sempre de mão dada com a pena, o desconsolo, o abatimento, a melancolia, o ver-se eclipsado numa paisagem interior negativa, incapaz de se imaginar no futuro.

A vida é uma obra que se realiza em direcção a um horizonte. Um projecto que implica olhar para o futuro, para esse porvir positivo que deve desabrochar diante de nós. A felicidade consiste em ter ilusões. Por essa mesma razão, aquele que não possui metas deixa de ter expectativas e corre o risco de ficar prisioneiro do passado. (..)

As depressões afectam milhões de pessoas por todo o mundo e devem-se a traumas gravíssimos da vida definidos por diversos factores negativos. É importante termos sempre presente que a felicidade não é permanente, que existem sim altos e baixos, frustrações e dificuldades, desgostos e erros, mas que tudo passa se foram vividos em doses controladas, desde que a pessoa encare todas essas dificuldades como parte de um crescimento interno, olhando sempre com esperança para um futuro que se encontra perante de si.

Tenho defendido e falado com muitas jovens e pessoas que me partilham parte de suas realidades e me perguntam como lidar com suas tristezas e problemas. A minha resposta dependendo do estado de cada um, costuma ser a que aplico a mim todos os dias, principalmente desde que o meu filho partiu de uma forma tão trágica.

Elas podem comprovar com o seu testemunho se for de sua vontade, onde lhes digo sempre para se amarem acima de qualquer coisa, ou pessoa. É importante e urgente usarmos a nossa capacidade de nos amarmos a nós mesmos e dizer a nós mesmos que somos seres maravilhosos, que é importante olhar em frente, que somos capazes de superar tudo, que temos que ter força, que não nos podemos deixar derrotar, seja qual for o nosso problema, ou privação. Tudo na vida é imposto por ciclos, tudo começa e tudo termina. Aplico-o mesmo no caso da morte do meu filho acreditem. Ele viveu, pouco ou muito, mas viveu o que quis, fui obrigada da forma mais severa que algum pai ou mãe pode ser obrigado, a aceitar tal realidade. Mas eu não morri, e vocês também não, deste modo resolvi utilizar a morte dele como uma prova de fogo e sobrevivência a mim mesma. Parece duro, não é? A forma como eu me expresso. Eu sei!

Acreditem que me choquei a mim mesma, quando passei a olhar para mim como um ser humano que é obrigada a sofrer, mas que também tem muito que viver e aprender. Sim! Também fraquejo e tem momentos que me questiono, mas sempre surge alguém que me diz que estou no caminho certo, seja o Pedro através de sonhos, mensagens das formas mais variadas, ou pessoas que tem a coragem para se dirigir a mim e pedirem o meu colo, o meu ombro. Tenho partilhado o meu número de telefone e tenho enviado mensagens de voz, onde é perceptível a entoação da minha energia de modo a transmitir uma mensagem de esperança. Ler depende muito do nosso próprio estado de espírito, e se estivermos tristes não iremos encontrar nenhum incentivo no que nos é transmitido.

É cruel, mas a verdade é que em muitos casos o sofrimento da depressão pode ser tão profundo que a única saída concebível para a pessoa seja somente o suicídio. E é aqui que eu irei sempre intervir. Quando vos digo que estarei aqui deste lado para vos ouvir somente a chorar, acreditem que é a mais pura da verdade, sem questões, nem julgamentos, e se colocarem em questão o facto de eu mesma ter perdido o meu filho e por isso não ter que ouvir as vossas angústias, porque já tenho a minha quota-parte de sofrimento. Parem! Sou eu quem decide, se posso ou não! E se eu vos estendo a mão, aceitem. Porque eu estou a dar-me de coração aberto e como também já repararam, irei sempre respeitar a vossa privacidade. A menos que seja um ultimato, e aí irei agir com tudo o que eu tiver ao meu alcance. Acreditem! Sem me alongar no que aconteceu recentemente, fi-lo e não olhei a meios para o atingir. A distância não altera nada quando a nossa vontade é a de estar lá para o outro.

A depressão leva a pessoa a perder o interesse pelas coisas, ela obriga a pessoa a fechar-se em si mesma e a ver sempre o lado negativo em tudo, culpa-se por tudo o que de errado lhe acontece e as suas relações com o próximo tornam-se complicadas. Constantemente a pessoa perde-se em pensamentos dolorosos sobre o passado, sobre o presente e uma constante incerteza sobre o futuro.

Segundo Rojas, a tendência suicida dividem-se em 5 fases, porém nem sempre se podem verificar todas elas e muito menos pela ordem que ele as descreve.

1 – Falar com frequência da morte. (aqui, surgem as primeiras ideias de morte)

2 – Possibilidade Suicida. (aqui a pessoa, considera como alternativa ao seu sofrimento interno, a autodestruição).

3 – Aceitação. (aqui a pessoa, alimenta-se pela ideia obsessiva, como o único caminho para a libertação do seu sofrimento).

4 – Influências informativas. (aqui a pessoa, teve conhecimento de alguém que se tentou suicidar, ou que se suicidou, e reforça deste modo a sua decisão, levando-o a procurar formas de acabar com a sua vida).

5 – Decisão suicida. (aqui a pessoa, coloca em prática todo o seu plano de aniquilação definitiva).

Para chegar à fase final, a pessoa pode ter dado muitas voltas à ideia, idealizado muitos finais e previsto, todos os pormenores, incluindo a carta de despedida ou um vídeo, em que explica à sua família e aos seus amigos os motivos daquela resolução fatal.

A depressão é um fenómeno muito sério e preocupante sim! Não descure do que sente e procure ajuda sempre que precisar, principalmente se, se identificar com o que aqui lhe escrevo. Não sou médica, nem especialista na matéria, sou unicamente uma mãe que viveu com um filho que mascarou sempre com uma alegria e bem-estar, uma angústia e tristeza negra que lhe colheu a vida por decisão dele.

Rojas, alerta-nos ainda para estes conselhos, dos quais não devemos descurar:

As depressões endógenas (sem motivo) curam-se com medicamentos e implicam seguir indicações e as instruções do médico.

As depressões exógenas (ou reacções depressivas) curam-se com psicoterapia e com alguma medicação.

Os antidepressivos devem ser receitados pelo psiquiatra ou por um médico que conheça os seus mecanismos de acção e os seus efeitos clínicos.

auto-medicação consiste em tomar antidepressivos, ansiolíticos, fármacos para combater a insónia ou outro tipo de farmacoterapia sem seguir as indicações do médico, com grave risco para o cérebro e para o organismo.

Tomar medicamentos antidepressivos consoante o gosto pessoal é perigoso e pode causar lesões mentais e ter efeitos muito perigosos.

Nas depressões bipolares é necessário fazer análises periódicas ao sangue para verificar o nível de alguns medicamentos na corrente circulatória.

É contra-indicado beber álcool durante a administração de antidepressivos e de ansiolíticos (medicamento que reduz a ansiedade, tensão e agitação), porque diminuem e bloqueiam a sua acção, além de produzirem efeitos perigosos e embotamento mental.

Embotamento mental é um distúrbio definido pela falta de sensibilidade a estímulos ou pela inércia intelectual, pode ser considerado igualmente como falta de vigor e de energia.

Durante a gravidez, a administração de antidepressivos e de ansiolíticos deve ser controlada pelo psiquiatra, pelo médico de clínica geral ou pelo ginecologista, com prudência e discernimento, pois pode prejudicar o feto.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Pedro Figuinha

 

 

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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