Irmãos Luto Morte Pedro Saudade Tristeza

“Hoje gelámos os dois com a questão daquela senhora. Senti o peso na tua respiração minha Nina.”

Tudo, mas tudo é um motivo para me fazer parar a respiração nestes últimos 8 meses que continuam a contar sem parar.

Estava eu com o meu filho Francisco e o meu marido, quando uma senhora na sua mais pura inocência e deliciada com a nossa forma de interagir com o nosso filho, questiona:

A senhora – “Só tendes este filho?”

Ficámos congelados! As nossas mentes pararam e não conseguimos responder!

Pela primeira vez não conseguimos responder! A nossa mente voou para muito longe onde gritámos e chorámos silenciosamente por dentro e eis que surge a vozinha do Francisco Daniel no meio daquele imenso silêncio.

Francisco Daniel – “Não! Tenho um mano mais velho que eu!”

Continuámos em silêncio e a nossa respiração alterou-se por completo, onde a minha mente pedia clemência para não nos colocar mais nenhuma questão.

Não fui capaz! Pela primeira vez não fui capaz de dizer fosse o que fosse e limitei-me a olhar para os pés da senhora, sem conseguir levantar novamente o meu olhar no encontro do rosto desta.

Não podia, mas queria fugir daquele lugar! Mas aguardava pelo meu filhote Francisco que estava no meio de um tratamento importante.

Pela primeira vez, não quis nem senti forças para proferir as palavras de que tenho três filhos e que um deles se tornou num anjo lindo, ou até mesmo para corrigir o meu Francisco onde lhe diria que ele tem dois manos e não um, mas fiquei em silêncio, porque iria magoar o meu filho, porque não preciso relembrá-lo que ele terá sempre o irmão Pedro, porque ele mesmo não o esquece.

Respeitei a sua resposta. Entendi que talvez tenha sido uma resposta inteligente de forma a não colocar mais questões na mente daquela perfeita desconhecida, que sem saber nos estava a magoar a todos com a simples questão se o Francisco Daniel seria filho único.

Silenciei o momento por me encontrar na presença do Kiko, ou talvez o tenha feito por me encontrar na presença de ambos (filho e marido). Nunca saberei concretamente. Sei porém que não consegui dizer nada.

Voltei a bloquear, quando no final do tratamento olho nos olhos do meu filhote Francisco e vejo o ultimo olhar que tenho presente do meu Pedro, naqueles olhos já sem vida com as pupilas completamente dilatadas. Tive que me controlar novamente. É que o tratamento que o Francisco havia feito tivera este resultado e eu não estava preparada para tal, como nunca irei estar preparada para muita coisa que ocorrerá com o passar dos anos em que tudo me trará lembranças do que já foi um dia o meu filho Pedro.

A vida de pais defilhados é uma sobrevivência constante, em pequenos aspectos na nossa vida que é preciso saber controlar para não desabar.

Se é fácil?

Não é mesmo! É uma luta constante! É uma dor desconcertante! É um aperto no coração permanente! É um viver com dor para sempre! O nosso corpo fica dormente.

Mais tarde, no conforto de nossa casa, pela primeira vez em 8 meses, o meu marido partilha um sentimento.

“Hoje gelámos os dois com a questão daquela senhora. Senti o peso na tua respiração minha Nina.”

Aproveitando a sua partilha, respondi que: “Sinto que vivo ligada a uma máquina e no dia em que desligarem o botão que me mantém viva, eu morrerei.”

Respondeu-me que eu não posso viver assim, que tenho que pensar que tenho dois filhos que precisam de mim.

Eu sei! Eu sei de verdade que sim, que tenho o David e o Francisco que precisam de mim, mas sei também que tinha o meu Pedro que é o que me faltará para sempre de forma a restabelecer-me o equilíbrio.

Um equilíbrio que nunca mais voltará e onde eu terei de reaprender a viver.

Com uma enorme saudade tua filhote, com um enorme desgosto na alma pela tua ausência,

A tua mãe,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *